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O mico-leão-preto que está no topo do vídeo é um jovem

Pesquisadores do Programa de Conservação do Mico-leão-preto registram vídeos inéditos que mostram o desenvolvimento de filhote do nascimento até os primeiros meses, o período mais crítico para a sobrevivência

24 de abril de 2026 Por Cibele Quirino

Pela primeira vez na história, pesquisadores acompanharam, por meio de vídeos,  filhote de mico-leão-preto (Leontopithecus chrysopygus), do nascimento até os primeiros dois meses de vida, além do desenvolvimento de um jovem indivíduo até a fase subadulta de quatro a 12 meses. Os vídeos feitos por meio de armadilhas fotográficas (cameras trap) instaladas no sub-bosque da Mata Atlântica de interior, no Pontal do Paranapanema, oeste do estado de São Paulo, trazem registros inéditos para a conservação da biodiversidade.

As imagens integram um recente estudo publicado no International Journal of Primatology, que reuniu a partir de 27 câmeras instaladas nas árvores (de 0,5 a 8 metros), 1.300 registros de mamíferos, incluindo cerca de 130 sobre o mico-leão-preto, de novembro de 2020 a dezembro de 2024. A região do Pontal do Paranapanema, onde o IPÊ atua há mais de 40 anos, abriga a maior população conhecida de mico-leão-preto com cerca de 1.800 indivíduos na natureza.

Daniel Felippi, veterinário do Programa de Conservação do mico-leão-preto, iniciativa do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, primeiro autor do artigo, destaca os insights obtidos a partir das imagens. “O fato de conseguirmos registrar, de forma não invasiva, um filhote e um jovem ao longo do tempo – já nos fornece indícios importantes sobre sua sobrevivência. Quando o filhote apareceu nas imagens durante as primeiras semanas e meses após o nascimento, sabemos que ele superou esse período inicial, que é o mais crítico. Isso contribui para a pesquisa porque a coleta de dados não gera estresse para os animais e amplia o potencial de monitoramento em diferentes áreas”. Para o estudo, os pesquisadores definiram três grupos focais de micos-leões-pretos.

Registro do filhote nas costas do mico-leão-preto que está um pouco mais abaixo

Jovem mico-leão-preto no topo

Maria Carolina Manzano, pesquisadora do Programa de Conservação do Mico-leão-preto que integra a equipe responsável pelo estudo, revela que o estudo teve como foco avaliar a eficácia das cameras trap como ferramenta de monitoramento não invasiva para o mico-leão-preto e outros mamíferos arborícolas em fragmentos florestais-chave para a conservação. “Definimos dois fragmentos florestais como área do estudo, a floresta contínua do Parque Estadual Morro do Diabo e fragmento da Fazenda San Maria, com diferentes estruturas e disponibilidade de recursos, o que pode influenciar a forma como os micos-leões-pretos e outros mamíferos arborícolas exploram recursos naturais e artificiais. Tínhamos como foco caracterizar os padrões de atividade diária em um fragmento florestal e uma área de floresta protegida contínua; comparar o uso de tipos específicos de recursos arbóreos, incluindo estruturas naturais (ocos de árvores e árvores estruturais importantes) e recursos complementares para a conservação (como caixas-ninho e comedouros), além de analisar a estrutura populacional por meio do monitoramento de grupos de micos-leões-pretos”.

Inovação no alto da floresta

O monitoramento da biodiversidade, por meio de armadilhas fotográficas instaladas nos troncos das árvores a meio metro do chão da floresta é uma prática consagrada. No entanto, no sub-bosque, onde na Mata Atlântica de interior onde vivem 50% das espécies de mamíferos ameaçadas de extinção essa ainda é uma tecnologia restrita, principalmente a contextos específicos, como pontes arbóreas. Estudos voltados para a avaliação de parâmetros demográficos, como esse, são uma lacuna metodológica e de pesquisa significativa para fins de conservação. “Acredito que isso se deve principalmente aos desafios logísticos e técnicos de instalar e manter equipamentos no dossel e sub-bosque. Além disso, o monitoramento em estratos mais altos da vegetação ainda é recente e menos padronizado do que no solo, o que limita sua aplicação. No nosso trabalho, exploramos também o potencial de utilizar as câmeras arbóreas direcionadas a recursos específicos para o mico-leão-preto, o que se comprovou ser eficiente no monitoramento da espécie. Por isso, iniciativas como esta são importantes para demonstrar o potencial dessa abordagem e ampliar seu uso em estudos ecológicos e de conservação.” explica Maria Carolina.

As armadilhas fotográficas instaladas de 0,5 a 8 metros de altura, com sensores de movimento infravermelho passivo, funcionavam 24 horas por dia, gravando vídeos de 15 segundos com um intervalo mínimo de 10 segundos entre cada gravação, até que nenhum movimento adicional fosse detectado.

O local do estudo, a Mata Atlântica está entre os biomas mais ameaçados do planeta – com 12% da cobertura original preservada, e é um hotspot de biodiversidade reconhecido globalmente por seus altos níveis de endemismo (espécies que ocorrem apenas ali) e severas pressões causadas pelo homem, incluindo perda e fragmentação de habitat; os principais desafios à conservação do mico-leão-preto. “As câmeras arbóreas nos deram um retrato inédito dessas florestas de cima para baixo. Além do mico-leão-preto, conseguimos observar como espécies diferentes compartilham os mesmos recursos e adaptam seu comportamento em áreas fragmentadas. Isso reforça a ideia de que proteger uma espécie bandeira ajuda a garantir a sobrevivência de muitas outras”, destaca Gabriela Rezende, coordenadora do Programa de Conservação do Mico-leão-preto.

Além do mico-leão-preto foram registrados também: o macaco-prego (Sapajus nigritus), a cuíca ou catita-cinza (Marmosa paraguayana), o gambá-de-orelha-branca  (Didelphis albiventris), a cuíca-lanosa (Caluromys philander), o esquilo-brasileiro ou caxinguelê (Guerlinguetus brasiliensis) e o tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla). “Vimos que nossas ações de conservação, como a instalação de caixas-ninho – também conhecidas como ocos artificiais – para o mico-leão-preto, também beneficiam outros animais que dependem desses recursos para abrigo. Das sete espécies investigadas neste estudo, além do mico-leão-preto, outras três espécies foram observadas pelos vídeos interagindo com os ocos artificiais: o gambá-de-orelha-branca, o macaco-prego e a cuíca-lanosa. Em relação ao tamanduá-mirim, ao contrário do que se acreditava, observamos um padrão flexível de atividade ao longo do dia e da noite, evidenciando uma adaptação importante para sobreviver em ambientes fragmentados”, afirma Gabriela.

Gambá-de-orelha-branca

Macaco-prego

Bastidores da vida no sub-bosque

A análise dos padrões de atividade revelou que o mico-leão-preto tem um pico de atividade no final da manhã (por volta das 10h00–11h00) e um aumento secundário, menos pronunciado, na atividade durante o final da tarde (aproximadamente das 16h00 –18h00), seguido por um declínio acentuado após o pôr do sol e atividade mínima durante a noite e o início da manhã. “Esse padrão de atividade difere dos padrões encontrados nos gravadores autônomos. Vocalmente a espécie parece ter picos de atividade pela manhã, até o meio-dia, comportamento possivelmente relacionado a defesa de território e coesão dos grupos sociais. Já em termos de locomoção, nossos estudos com acelerômetros mostraram um padrão semelhante ao das câmeras, com dois picos de atividade, de manhã e no entardecer. Durante a noite, a espécie se abriga dentro dos ocos naturais das árvores”, explica Maria Carolina Manzano.

Já o macaco-prego e o esquilo-brasileiro apresentaram atividade predominantemente diurna, com o macaco-prego ativo amplamente ao longo do dia (6h00–18h00) e o esquilo concentrando a atividade no início da manhã até o meio-dia (6h00–12h00). O tamanduá-mirim apresentou um padrão de atividade único, com leve atividade entre a madrugada e o início da manhã até às 8h00, baixa atividade durante o dia e um pico secundário no entardecer, sugerindo um componente crepuscular e noturno, chamado de catemeral.  A catita-cinza, a cuíca-lanosa e o gambá-de-orelha-branca apresentaram hábitos predominantemente noturnos, com atividade mínima durante o dia e atividade acentuada do crepúsculo ao início da manhã (18:00–06:00 h).

Entre os quatro tipos de recursos: ocos de árvores, caixas-ninho (ocos artificiais), Cabreúva e plataformas de alimentação (comedouros); as últimas foram mais frequentemente utilizadas, representando 500 dos 1.277 eventos independentes (39,1% do total de registros).

Já a sobreposição temporal entre pares de espécies variou de acordo com os tipos de recursos. As plataformas de alimentação e as caixas-ninho foram caracterizados por altos valores de sobreposição temporal entre os pares de espécies registrados. Os ocos naturais exibiram uma ampla gama de valores de sobreposição, incluindo altas sobreposições entre alguns pares de espécies, sobreposições intermediárias e baixas quando envolvendo o mico-leão-preto e outras espécies. Em relação aos locais de dormir, particularmente as cavidades naturais das árvores, emergiram como recursos compartilhados críticos para mamíferos arborícolas.

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