Crédito da foto: Leonardo Merçon
Após uma fase inicial realizada no Sul da Bahia, os pesquisadores decidiram ampliar o projeto para toda a área de ocorrência do macaco guigó que vai do Rio Doce, no Espírito Santo, ao Rio Paraguaçu na Bahia. “A participação da comunidade tem sido muito forte e isso, sem dúvida, influenciou nessa tomada de decisão. Com essa nova estratégia também teremos dados que vão contribuir ainda mais a conservação de uma espécie que já está na lista de ameaçadas de extinção”, explica Maria Otávia Crepaldi, coordenadora da atuação do IPÊ no Sul da Bahia.
Com essa novidade, os pesquisadores convidam moradores e turistas a compartilharem, por meio de formulário online, se já viram, ouviram ou ainda conhecem o macaco guigó (Callicebus melanochir).
“A Ciência Cidadã tem uma papel-chave nesse projeto, ao mesmo tempo que reforça a importância do conhecimento da população, também chama a atenção para uma espécie que já enfrenta uma série de desafios. Participe e mobilize seus familiares e amigos, quanto mais informações coletarmos, mais subsídios teremos para, avançar com um projeto voltado à conservação da espécie”, destaca Fábio Motta, pesquisador à frente do Projeto Guigó.
Toda população está convidada a participar, para isso bastar acessar o link do formulário https://bit.ly/_guigo e preenchê-lo até 28 de agosto. São perguntas simples, mas estratégicas para a ciência. “A expectativa é conseguirmos, a partir das respostas, identificar as percepções, conhecimentos e possíveis avistamentos da espécie”, completa Maria Otávia.
Espécie Ameaçada de Extinção
Apesar de pouco conhecido, o macaco guigó que ocorre do Sul da Bahia até o Espírito Santo, já integra a lista de animais ameaçados de extinção da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN -International Union of Conservation of Nature). O guigó é um primata que depende diretamente das florestas, no entanto, tem sido cada vez mais frequentes avistamentos da espécie em corredores de mata urbanos. “O fato por si só alerta para potenciais consequências da pressão sobre o habitat. Na lista da IUCN, o guigó está classificado por “Vulnerável”, mas, com a pressão sobre o território, pode migrar com rapidez para categorias mais críticas. A falta de informações sobre a espécie preocupa, por isso, precisamos avançar com celeridade para que as futuras gerações também tenham a oportunidade de ouvir o guigó cantando pela floresta”, explica a coordenadora da iniciativa.
Entre as prioridades dos pesquisadores estão: mapear o habitat, entender quantos indivíduos podem habitar uma floresta e compreender os alimentos que compõem a dieta do guigó, além do comportamento (vocalização, deslocamento, etc). “Com esses levantamentos teremos subsídios para propor estratégias com potencial de contribuir com a conservação da espécie”, destaca Maria Otávia.
Chamado por Dados Técnicos – Você já viu o guigó em campo?
Outra novidade do projeto é o Chamado por Dados Técnicos, uma prática que visa consolidar, como o nome revela, os dados coletados por outros pesquisadores, tanto na esfera acadêmica quanto profissional. “São informações que podem estar registradas da iniciação científica ao doutorado, assim como em inventários e nos relatórios de consultoria ambiental, que podem nos ajudar a mapear o Guigó” explica Fábio Motta.
Estudantes, pesquisadores e profissionais que, durante atividades de campo na região, tenham observado ou registrado o Guigó em suas áreas de estudo, mesmo que o trabalho tivesse como alvo outra espécie, compartilhem as informações sobre o guigó com a equipe do projeto. Os trabalhos devem ser enviados para: guigo.suldabahia@gmail.com
Assunto: “Guigó Detectado – Trabalho Acadêmico”
Considerem as informações registradas nos seguintes materiais, incluindo trabalhos não publicados. É preciso apenas que exista um documento que descreva o registro do guigó. As informações dos trabalhos serão tratas com extrema responsabilidade e utilizadas exclusivamente para fins científicos relacionados à construção do mapa do Guigó. Os dados serão armazenados de forma segura, respeitando a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPS), com todas as citações e o devido reconhecimento aos autores que compartilharam as informações.
Exemplos de trabalhos para o Chamado por Dados Técnicos
- Iniciação Científica
- TCC
- Mestrado
- Doutorado
- Levantamentos ambientais
- Inventários florestais, faunísticos ou ecológicos
- Outros estudos de campo
As áreas de estudo do trabalho deverão estar localizadas entre:
- O sul do Rio Paraguaçu, região Sul da Bahia;
- O norte do Rio Doce, em Linhares, extremo Norte do Espírito Santo;
- O extremo leste de Minas Gerais, entre Grão Mogol e o litoral.
Em caso da área de estudo não ter descrição formal e clara no projeto, as coordenadas do registro podem ser incluídas no corpo do texto do e-mail.
Reconhecimento na conservação
Há mais de 40 anos, o Instituto atua pela conservação do mico-leão-preto, espécie endêmica do interior do estado de São Paulo – entre o Rio Tietê e o Rio Paranapanema. Em 2024, artigo científico publicado em revista internacional Conservation Biology revelou que entre os primatas ameaçados de extinção em todo o mundo, apenas o mico-leão-preto teve o status melhorado. A estimativa mais recente considera que 1.800 indivíduos vivem na natureza, 65% deles no Parque Estadual Morro do Diabo.
Além do mico-leão-preto, o IPÊ já realizou pesquisas significativas com o mico-leão-da-cara-preta (Leontopithecus caissara) presente no litoral paranaense, o sauá (Callicebus nigrifrons ) e o sagui-da-serra-escuro (Callithrix aurita), ambos na região de Nazaré Paulista/SP, o muriqui-do-sul também conhecido como mono-carvoeiro (Brachyteles arachnoides) no Rio de Janeiro e o sauim de coleira (Saguinus bicolor) no Amazonas; comprovando seu histórico de organização atuante pela conservação dos primatas brasileiros.
Sul da Bahia
Desde 2009, a ESCAS – Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade, frente de educação do IPÊ, com sede em Nazaré Paulista (SP), passou a oferecer o Mestrado Profissional também em Serra Grande, no município de Uruçuca (BA). Ali, o Mestrado teve apoio do Instituto Arapyaú e, desde 2015, da Veracel Celulose. Em 2019, ainda em parceira com a Veracel, o Mestrado Profissional passa a ser realizado em Porto Seguro (BA).
No mesmo ano, junto com iniciativas e instituições locais, o IPÊ deu início a projetos socioambientais na região construindo uma rede de apoio para o desenvolvimento de ações sustentáveis na região. A partir de 2021, em parceria com a Escola de Floresta, da Universidade de Yale (EUA), o IPÊ passou a contar com a Iniciativa de Treinamento e Formação
de Lideranças Ambientais, que oferece formações em conservação da biodiversidade e uso sustentável da terra para agricultores, estudantes, extensionistas rurais, profissionais de restauração e outros interessados por esses temas. O projeto também apoia, com recursos e mentorias, lideranças ambientais na execução de seus projetos.
Em 2024, os pesquisadores da região também implementaram o Prospera – Projeto de Restauração Orientada e Sustentável para Produção Ecológica, Regeneração Ambiental e Renda Ampliada. A iniciativa apoia o produtor rural no planejamento de uso da terra, visando aumentar a produtividade, qualidade do solo e disponibilidade da água nas propriedades. Além disso, a proposta fortalece a economia local, desenvolvendo cadeias produtivas sustentáveis, compartilhando conhecimento e promovendo benefícios para as pessoas através da conservação da biodiversidade e melhoria do clima. Tudo isso a partir de um eixo central do projeto que é a restauração ecossistêmica e a recuperação produtiva de um trecho do Corredor Central da Mata Atlântica, abrangendo as cidades de Prado, Porto Seguro e Itamaraju.