Crédito da foto: Joana Nodari/Grupo de Pesquisa Reconecta
Para conservar uma espécie é preciso conhecê-la, com esse objetivo o IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas inicia, neste mês, o Projeto Guigó, no Sul da Bahia. A primeira fase, recém-lançada, convida moradores e turistas a compartilharem, por meio de formulário online, se já viram, ouviram ou ainda conhecem o macaco guigó (Callicebus melanochir). “Começar o projeto com uma ação de Ciência Cidadã tem uma série de significados, mas a principal, é reforçar a potência do conhecimento da população. Quanto mais informações coletarmos, mais subsídios teremos para, em um futuro próximo, avançar com um projeto voltado à conservação da espécie”, destaca Maria Otávia Crepaldi, coordenadora da atuação do IPÊ no Sul da Bahia.
Toda população está convidada a participar, para isso bastar acessar o link do formulário https://bit.ly/_guigo e preenchê-lo até 17 de maio (sim, ampliamos o prazo). “A expectativa é conseguirmos, a partir das respostas, identificar as percepções, conhecimentos e possíveis avistamentos da espécie”, completa Maria Otávia.
Espécie Ameaçada de Extinção
Apesar de pouco conhecido, o macaco guigó que ocorre do Sul da Bahia até o Espírito Santo, já integra a lista de animais ameaçados de extinção da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN – International Union of Conservation of Nature. Como primata, o guigó vive em grandes florestas, no entanto, tem sido cada vez mais frequentes os avistamentos da espécie em corredores de mata urbanos. “O fato por si só alerta para potenciais consequências da pressão sobre o habitat. Na lista da IUCN, o guigó está classificado por “Vulnerável”, mas, com a pressão sobre o território, pode migrar com rapidez para categorias mais críticas. A falta de informações sobre a espécie preocupa, por isso, precisamos avançar com celeridade para que as futuras gerações também tenham a oportunidade de ouvir o guigó cantando pela floresta”, explica a coordenadora da iniciativa.
Entre as prioridades dos pesquisadores estão: mapear o habitat e compreender os alimentos que compõem a alimentação do guigó, além do comportamento (vocalização, deslocamento, etc). “Com esses levantamentos teremos subsídios para propor estratégias com potencial de contribuir com a conservação da espécie”, destaca Maria Otávia.
Reconhecimento na conservação
O macaco guigó é o novo primata alvo de estudos do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas. Há mais de 40 anos, o Instituto atua pela conservação do mico-leão-preto, espécie endêmica do interior do estado de São Paulo – entre o Rio Tietê e o Rio Paranapanema.
Em 2024, artigo científico publicado em revista internacional Conservation Biology revelou que entre os primatas ameaçados de extinção em todo o mundo, apenas o mico-leão-preto teve o status melhorado. A estimativa mais recente considera que 1.800 indivíduos vivem na natureza, 65% deles no Parque Estadual Morro do Diabo.
Além do mico-leão-preto, o IPÊ já realizou pesquisas significativas com o mico-leão-da-cara-preta (Leontopithecus caissara) presente no litoral paranaense, o sauá (Callicebus donacophilus) e o sagui-da-serra-escuro (Callithrix aurita), ambos na região de Nazaré Paulista/SP, o muriqui-do-sul também conhecido como mono-carvoeiro (Brachyteles arachnoides) no Rio de Janeiro e o sauim de coleira (Saguinus bicolor) no Amazonas; comprovando seu histórico de organização atuante pela conservação dos primatas brasileiros.
Sul da Bahia
Desde 2009, a ESCAS – Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade, frente de educação do IPÊ, com sede em Nazaré Paulista (SP), passou a oferecer o Mestrado Profissional também em Serra Grande, no município de Uruçuca (BA). Ali, o Mestrado teve apoio do Instituto Arapyaú e, desde 2015, da Veracel Celulose. Em 2019, ainda em parceira com a Veracel, o Mestrado Profissional passa a ser realizado em Porto Seguro (BA).
No mesmo ano, junto com iniciativas e instituições locais, o IPÊ deu início a projetos socioambientais na região construindo uma rede de apoio para o desenvolvimento de ações sustentáveis na região. A partir de 2021, em parceria com a Escola de Floresta, da Universidade de Yale (EUA), o IPÊ passou a contar com a Iniciativa de Treinamento e Formação de Lideranças Ambientais, que oferece formações em conservação da biodiversidade e uso sustentável da terra para agricultores, estudantes, extensionistas rurais, profissionais de restauração e outros interessados por esses temas. O projeto também apoia, com recursos e mentorias, lideranças ambientais na execução de seus projetos.
Em 2024, os pesquisadores da região também implementaram o Prospera – Projeto de Restauração Orientada e Sustentável para Produção Ecológica, Regeneração Ambiental e Renda Ampliada. A iniciativa apoia o produtor rural no planejamento de uso da terra, visando aumentar a produtividade, qualidade do solo e disponibilidade da água nas propriedades. Além disso, a proposta fortalece a economia local, desenvolvendo cadeias produtivas sustentáveis, compartilhando conhecimento e promovendo benefícios para as pessoas através da conservação da biodiversidade e melhoria do clima. Tudo isso a partir de um eixo central do projeto que é a restauração ecossistêmica e a recuperação produtiva de um trecho do Corredor Central da Mata Atlântica, abrangendo as cidades de Prado, Porto Seguro e Itamaraju.