Evitar a extinção local da população de micos-leões-pretos que vive na Estação Ecológica de Caetetus (Fundação Florestal de São Paulo – FF/SP), localizada no Médio Paranapanema (SP), no município de Gália/SP – na região de Marília, é a ação que está no topo do planejamento dos cerca de 20 especialistas que fazem parte do Programa de Manejo Populacional do Mico-leão-preto (PMP-MLP), uma política pública que visa garantir a viabilidade de longo prazo das populações de mico-leão-preto e, dessa forma, a conservação da espécie. O Programa segue as diretrizes da IN ICMBio nº 5/2021.
Gabriela Rezende, coordenadora do Programa de Conservação do Mico-leão-preto, que também coordena o Programa de Manejo (PMP –MLP), conta sobre o desafio. “Essa população tem um risco muito iminente de extinção local, por conta do tamanho populacional extremamente reduzido. Fizemos alguns estudos com gravadores na área toda que indicaram que realmente é uma população que precisa de um manejo urgente para não corrermos o risco de ela se extinguir”.
Os cenários modelados no VORTEX (software que modela e avalia a viabilidade de populações, ajudando no planejamento para a conservação e manejo de espécies) possibilitam determinar quantos grupos serão necessários levar para essa área para salvar essa população, qual que tem que ser a frequência de suplementação e também o impacto desse manejo para as populações-fonte (de onde sairão os indivíduos). “Na Estação Ecológica de Caetetus, vamos precisar trabalhar com translocação de grupos para lá dentro do prazo de cinco a 10 anos, no máximo”.
Política Pública
A decisão de eleger a população de micos-leões-pretos da Estação Ecológica de Caetetus (FF/SP) como prioritária ocorreu durante a Oficina para Implementação do Programa de Manejo Populacional do Mico-leão-preto, que reuniu cerca de 20 especialistas na sede do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, em Nazaré Paulista (SP), no mês de março (11 a 13). A Oficina tinha por objetivos: avaliar o estado atual das populações de mico-leão-preto com base em dados atualizados; definir as estratégias prioritárias de manejo populacional para a conservação da espécie; realizar a monitoria anual do Programa de Manejo Populacional do Mico-leão-preto.
Durante a oficina, os especialistas atualizaram o modelo de viabilidade populacional de 2021, que orienta no planejamento das ações de manejo. A partir das novas discussões, avaliaram e identificaram populações e áreas que precisam de manejo conforme os cenários modelados; realizaram análises de viabilidade populacional para identificação de populações elegíveis para o manejo; e estabeleceram um número mínimo de indivíduos ou grupos a serem manejados em determinado intervalo de tempo visando garantir a viabilidade populacional, sendo todas essas ações do PMP-MLP.

Entre os profissionais presentes estava Fábio Stucchi Vanucci, responsável pelos modelos e cenários de análise de viabilidade populacional do Grupo Especialista em Planejamento de Conservação da Comissão de Sobrevivência de Espécies da IUCN (Species Survival Commission – Conservation Planning Specialist Group (SSC-CPSG/IUCN), que deu suporte no planejamento da oficina com foco exclusivo no manejo de populações.
Fazem parte do Programa de Manejo Populacional do Mico-leão-preto profissionais do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (CPB-ICMBio), Fundação Florestal de São Paulo, gestores de áreas protegidas que abrigam a espécie (ICMBio e FF/SP), instituições ex situ (Zoológico de São Paulo, Zoológico Municipal de Guarulhos e o Núcleo de Pesquisa e Conservação de Fauna Silvestre – CECFau/SEMIL-SP), pesquisadores de universidades (LaP/UNESP e LabBMC/UFSCar) e o IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas.
Resguardar a população com maior diversidade genética da espécie
O grupo alinhou durante a Oficina que a população de micos-leões-pretos da Floresta Nacional (Flona) Capão Bonito, no Alto Paranapanema, também é prioritária. “Essa é a população com a maior diversidade genética registrada para a espécie”, destaca Gabriela.
O desafio está no processo de concessão em andamento da Flona para manejo florestal, em que cerca de 3 mil hectares, de 4,2 mil totais, serão suprimidos. Trata-se de uma área de floresta plantada, com predomínio de pinus e eucalipto, entremeada por áreas de floresta nativa em matas ciliares, além de plantios de araucárias. Os micos usam tanto a floresta nativa quanto os pinus, porque são áreas antigas com sub-bosque bem desenvolvido. “Os modelos nos mostraram que a retirada de alguns grupos da área suprimida é uma alternativa importante para resguardarmos a diversidade genética dessa população”, explica Gabriela.
Saiba mais
O mico-leão-preto é uma espécie ameaçada de extinção na classificação “Em Perigo”, uma categoria mais esperançosa que o status em que se encontrava. Artigo científico publicado na Conservation Biology em 2024 revelou que entre os primatas ameaçados de extinção em todo o mundo, apenas o mico-leão-preto teve o status melhorado. A estimativa mais recente considera que 1.800 indivíduos vivem na natureza, distribuídos em cerca de 20 localidades no estado de São Paulo – entre o Rio Tietê e o Rio Paranapanema), sendo cerca de 65% deles no Parque Estadual Morro do Diabo.
