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Corredor restaurado da Mata Atlântica - Pontal do Paranapanema

Restauração florestal no Pontal do Paranapanema é referência por resultados com a biodiversidade, por promover o empreendedorismo e somar no enfrentamento aos desafios climáticos

7 de julho de 20264 de agosto de 2025 Por Cibele Quirino

Crédito da foto principal Laurie Hedges

Florestas que trazem mais do que a biodiversidade de volta, mas fomentam também negócios sustentáveis liderados pela comunidade local e assim geram renda são os objetivos do projeto Corredores de Vida que completa 25 anos neste ano. O projeto ainda potencializa o número de propriedades que passaram a se adequar em relação ao Código Florestal. Nesses 25 anos, o projeto já estabeleceu parceria com 50 fazendeiros.

Realizado no Pontal do Paranapanema, no extremo oeste do estado de São Paulo, o projeto apesar de ser uma iniciativa do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas se tornou um ativo da comunidade – de pequenos produtores rurais (entre eles assentados) a fazendeiros. Além da volta da biodiversidade e dos serviços da natureza, como regulação climática, por exemplo, pessoas estão transformando vidas, a partir do empreendedorismo fomentado pelo projeto.

Em ano de COP no Brasil e de efeitos das mudanças climáticas cada vez mais evidentes, a restauração florestal integra a lista de soluções baseadas na natureza para mitigar desafios que são globais. A ONU aponta a necessidade de restauração de 1 bilhão de hectares de florestas no mundo, sendo 12 milhões de hectares de florestas só no Brasil, o que tem o potencial de gerar mais de 5 milhões de empregos, segundo estudo do Instituto Escolhas. No entanto, em 2024, o Observatório do Clima lançou uma proposta mais atualizada para o Brasil cumprir com a redução das suas emissões, a restauração de 21 milhões de hectares de cobertura vegetal em seu território.

Para Laury Cullen, diretor de projetos e pesquisas do projeto Corredores de Vida, do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, a restauração florestal é também uma solução baseada em pessoas. Laury já conta com oito prêmios internacionais – todos vinculados ao projeto – incluindo do Whitley Fund for Nature, da Rolex e da Society for Restoration Ecology. 

Crédito: Carlos Aidar


Até o final deste ano, o projeto deve chegar à marca de 12 milhões de mudas de árvores plantadas, em mais de 7.500 hectares, o equivalente a 7.500 campos de futebol ou ainda a cerca de 20% do Parque Estadual Morro do Diabo, a principal unidade de conservação da região. Até 30 de setembro de 2025, o projeto já contava com mais de 11 milhões de árvores, mais de 6.700 hectares. As áreas restauradas formam uma verdadeira rede conectando tanto os dois principais fragmentos florestais da região: o Parque Estadual Morro do Diabo (Fundação Florestal) e a Estação Ecológica Mico-leão-preto (ICMBio), quanto criando conexões desses fragmentos com Áreas de Preservação Permanente e de Reservas Legais.

Rede de parceiros pela floresta

Para que sementes se tornem de fato um dia uma floresta, é preciso aliar conhecimento, uma verdadeira rede de parceiros e estar próximo para garantir que essas as mudas enfrentem o período crítico – até três anos após o plantio com acompanhamento.

No projeto Corredores de Vida, as mudas são adquiridas nos viveiros comunitários fomentados pelo projeto há também 25 anos. Ao todo, 61 pessoas entre colaboradores e lideranças estão vinculadas aos viveiros. De 2023 para 2024, o IPÊ passou a adquirir mudas de mais cinco viveiros comunitários, 13 ao todo, alta de em 63%. Juntos, esses empreendimentos   forneceram mais de 3,3 milhões de mudas em 2024, crescimento de 206% em relação ao ano anterior. Para 2025, a expectativa é adquirir no total 4,8 milhões de mudas. De janeiro a maio, já foram compradas 2,3 milhões de mudas. 

Crédito: Laurie Hedges

Os plantios na região do Pontal do Paranapanema são realizados com base no Mapa dos Sonhos, um estudo que funciona como um raio-X da situação de onde é maisestratégico plantar para a conectividade da fauna, em especial do mico-leão-preto (Leontopithecus chrysopygus), espécie que ocorre apenas na Mata Atlântica de Interior do estado de São Paulo.

Na região, para promover a conectividade entre os fragmentos florestais é preciso plantar em área de conservação da propriedade privada. Na área de atuação do projeto, cerca de 14% das fazendas estão adequadas ambientalmente. O projeto tem como foco propriedades com pelo menos 20% de cobertura vegetal nativa estabelecida ou em restauração que formam as Reservas Legais.  “Se o fazendeiro busca se adequar ao Código Florestal, temos uma conversa muito aberta com os proprietários e administradores das fazendas, contribuímos com o preparo do solo, plantio e a manutenção (de dois a três anos, depende da área). Por outro lado, eles vão cuidar dessas áreas, é de fato um ganha ganha”, explica Cullen. 

As mudas adquiridas nos viveiros são levadas direto para a área de plantio nas propriedades. O projeto conta com 18 empresas parceiras – alta também de 63% de 2023 para 2024 – com 147 pessoas beneficiadas entre lideranças e colaboradores. As empresas atuam na preparação do solo, plantio e na manutenção da área.

“No projeto, temos assentados plantando dentro de grandes fazendas, em mais uma dinâmica de ganhos compartilhados. O fazendeiro se adequa à legislação. Para o assentado, que atua na cadeia da restauração, estamos falando de emprego, renda e oportunidade de crescimento. Para o projeto é a soma desses fatores com o ganho para a biodiversidade e a sociedade como um todo”, ressalta Laury.

As equipes dos viveiros e das empresas mantêm um fluxo contínuo de informações com os técnicos do IPÊ, o que possibilitou uma série de aprendizados com benefícios tanto para o trabalho quanto para o resultado.

“A restauração florestal apesar de ter uma conotação poética, é algo duro para as mudas, plantamos em áreas degradadas onde muitas vezes nenhuma árvore restou, sol, chuva, seca; é essencial saber como tem sido a evolução do plantio em cada área para planejar o próximo passo”, conta Haroldo Gomes, coordenador de campo do projeto, assentado da reforma agrária e que está concluindo o doutorado. 

Monitoramento comprova que as florestas são habitadas por fauna

Os resultados do projeto são acompanhados de perto por pesquisadores do projeto em parceria com estudantes e professores de instituições de ensino superior, como a Universidade Federal de Lavras, Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq/USP), Laboratório de Ecologia Espacial e Conservação (LEEC) da UNESP Rio Claro/SP, LabBMC – Laboratório de Biodiversidade Molecular e Conservação da UFSCar e a ESCAS – Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade, a escola do IPÊ.

Cameras trap e gravadores de áudio estão entre as tecnologias utilizadas para identificar o retorno da fauna às áreas restauradas. O projeto já identificou mais de 20 espécies de mamíferos de médio e grande porte que utilizam os corredores de novas florestas para travessias entre os fragmentos florestais da região. “Isso é a prova de que se trata de fato de trazer a floresta de volta. Os animais de topo de cadeia aprovaram esse trabalho”, destaca Laury Cullen, coordenador do projeto.

A iniciativa também funciona como um laboratório vivo para estudantes do Mestrado Profissional em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável e da pós-graduação da ESCAS/IPÊ, que conhecem de perto o potencial de transformação da restauração florestal. Cerca de 250 alunos da ESCAS já estiveram nas áreas de atuação do projeto. Apenas relacionadas à ESCAS, cerca de 30 teses de Mestrado já foram desenvolvidas sobre temas como restauração, monitoramento da biodiversidade, serviços ecossistêmicos, carbono, entre outros. 

Anta brasileira
Tamanduá-bandeira
Onça-parda


Maior corredor restaurado da Mata Atlântica

Já são 14 anos, desde que a restauração do maior corredor restaurado na Mata Atlântica foi concluída. Plantado de 2005 a 2011 com recurso de quatro  financiadores, o corredor conecta as duas Unidades de Conservação da região: o Parque Estadual Morro do Diabo e a Estação Ecológica Mico-leão-preto passando pela Fazenda Rosanela. “São 12 km com 2,4 milhões de mudas de árvores plantadas, é a foto oficial do projeto Corredores de Vida. Até 2020, estávamos em um fluxo de menor escala, muito por conta dos investimentos. Parte importante do trabalho nesses 20 anos iniciais foi a captação de recurso para manter a equipe e avançar com os plantios. Até 2020, plantávamos de 100 a 200 hectares em 1 ano, hoje plantamos isso em um mês”, destaca Laury.

Crédito: Laurie Hedges


Por se tratar de uma grande planície, o plantio é mecanizado o que também favorece o ganho de escala. Os tratores utilizados no plantio são operados por um profissional, enquanto entre quatro e cinco profissionais realizam o plantio já integrado à irrigação. Com um trator e uma equipe de cinco a seis profissionais, atualmente, é possível plantar até 30 mil mudas/dia, cerca de 15 hectares.

Ganho de escala

De 2002 a 2020, o Mapa dos Sonhos, onde o projeto atuava, abrangia sete municípios Euclides da Cunha Paulista, Marabá Paulista, Mirante do Paranapanema, Presidente Epitácio, Rosana, Sandovalina e Teodoro Sampaio. A partir de 2021, já com 18 anos de história, a experiência do projeto em estabelecer corredores florestais garantiu ao IPÊ ampliar a área de atuação a partir da parceria com a Biofílica.

Restauração florestal no Pontal do Paranapanema
Crédito Ana Lilian Pereira

Nessa esfera foi criado o projeto ARR Corredores de Vida voltado para a geração de créditos de carbono. Do total de 260 mil hectares de passivos ambientais, na região do Pontal, a meta é restaurar 75 mil hectares de áreas prioritárias até 2041, com base no Mapa dos Sonhos ampliado que passou a incluir mais 23 municípios, totalizando 30.

Em 2022, o projeto foi reconhecido como o Melhor Projeto de Créditos de Carbono do Mundo (Best Individual Offsetting Project) pela Environmental Finance. A estimativa é remover 29 milhões de toneladas de CO₂e ao longo de 50 anos.

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