Crédito da foto principal Laurie Hedges
Florestas que trazem mais do que a biodiversidade de volta, mas fomentam também negócios sustentáveis liderados pela comunidade local e assim geram renda são os objetivos do projeto Corredores de Vida que completa 25 anos neste ano. O projeto ainda potencializa o número de propriedades que passaram a se adequar em relação ao Código Florestal. Nesses 25 anos, o projeto já estabeleceu parceria com 50 fazendeiros.
Realizado no Pontal do Paranapanema, no extremo oeste do estado de São Paulo, o projeto apesar de ser uma iniciativa do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas se tornou um ativo da comunidade – de pequenos produtores rurais (entre eles assentados) a fazendeiros. Além da volta da biodiversidade e dos serviços da natureza, como regulação climática, por exemplo, pessoas estão transformando vidas, a partir do empreendedorismo fomentado pelo projeto.
Em ano de COP no Brasil e de efeitos das mudanças climáticas cada vez mais evidentes, a restauração florestal integra a lista de soluções baseadas na natureza para mitigar desafios que são globais. A ONU aponta a necessidade de restauração de 1 bilhão de hectares de florestas no mundo, sendo 12 milhões de hectares de florestas só no Brasil, o que tem o potencial de gerar mais de 5 milhões de empregos, segundo estudo do Instituto Escolhas. No entanto, em 2024, o Observatório do Clima lançou uma proposta mais atualizada para o Brasil cumprir com a redução das suas emissões, a restauração de 21 milhões de hectares de cobertura vegetal em seu território.
Para Laury Cullen, diretor de projetos e pesquisas do projeto Corredores de Vida, do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, a restauração florestal é também uma solução baseada em pessoas. Laury já conta com oito prêmios internacionais – todos vinculados ao projeto – incluindo do Whitley Fund for Nature, da Rolex e da Society for Restoration Ecology.

Crédito: Carlos Aidar
Até o final deste ano, o projeto deve chegar à marca de 12 milhões de mudas de árvores plantadas, em mais de 7.500 hectares, o equivalente a 7.500 campos de futebol ou ainda a cerca de 20% do Parque Estadual Morro do Diabo, a principal unidade de conservação da região. Até 30 de setembro de 2025, o projeto já contava com mais de 11 milhões de árvores, mais de 6.700 hectares. As áreas restauradas formam uma verdadeira rede conectando tanto os dois principais fragmentos florestais da região: o Parque Estadual Morro do Diabo (Fundação Florestal) e a Estação Ecológica Mico-leão-preto (ICMBio), quanto criando conexões desses fragmentos com Áreas de Preservação Permanente e de Reservas Legais.
Rede de parceiros pela floresta
Para que sementes se tornem de fato um dia uma floresta, é preciso aliar conhecimento, uma verdadeira rede de parceiros e estar próximo para garantir que essas as mudas enfrentem o período crítico – até três anos após o plantio com acompanhamento.
No projeto Corredores de Vida, as mudas são adquiridas nos viveiros comunitários fomentados pelo projeto há também 25 anos. Ao todo, 61 pessoas entre colaboradores e lideranças estão vinculadas aos viveiros. De 2023 para 2024, o IPÊ passou a adquirir mudas de mais cinco viveiros comunitários, 13 ao todo, alta de em 63%. Juntos, esses empreendimentos forneceram mais de 3,3 milhões de mudas em 2024, crescimento de 206% em relação ao ano anterior. Para 2025, a expectativa é adquirir no total 4,8 milhões de mudas. De janeiro a maio, já foram compradas 2,3 milhões de mudas.

Crédito: Laurie Hedges
Os plantios na região do Pontal do Paranapanema são realizados com base no Mapa dos Sonhos, um estudo que funciona como um raio-X da situação de onde é maisestratégico plantar para a conectividade da fauna, em especial do mico-leão-preto (Leontopithecus chrysopygus), espécie que ocorre apenas na Mata Atlântica de Interior do estado de São Paulo.
Na região, para promover a conectividade entre os fragmentos florestais é preciso plantar em área de conservação da propriedade privada. Na área de atuação do projeto, cerca de 14% das fazendas estão adequadas ambientalmente. O projeto tem como foco propriedades com pelo menos 20% de cobertura vegetal nativa estabelecida ou em restauração que formam as Reservas Legais. “Se o fazendeiro busca se adequar ao Código Florestal, temos uma conversa muito aberta com os proprietários e administradores das fazendas, contribuímos com o preparo do solo, plantio e a manutenção (de dois a três anos, depende da área). Por outro lado, eles vão cuidar dessas áreas, é de fato um ganha ganha”, explica Cullen.
As mudas adquiridas nos viveiros são levadas direto para a área de plantio nas propriedades. O projeto conta com 18 empresas parceiras – alta também de 63% de 2023 para 2024 – com 147 pessoas beneficiadas entre lideranças e colaboradores. As empresas atuam na preparação do solo, plantio e na manutenção da área.
“No projeto, temos assentados plantando dentro de grandes fazendas, em mais uma dinâmica de ganhos compartilhados. O fazendeiro se adequa à legislação. Para o assentado, que atua na cadeia da restauração, estamos falando de emprego, renda e oportunidade de crescimento. Para o projeto é a soma desses fatores com o ganho para a biodiversidade e a sociedade como um todo”, ressalta Laury.
As equipes dos viveiros e das empresas mantêm um fluxo contínuo de informações com os técnicos do IPÊ, o que possibilitou uma série de aprendizados com benefícios tanto para o trabalho quanto para o resultado.
“A restauração florestal apesar de ter uma conotação poética, é algo duro para as mudas, plantamos em áreas degradadas onde muitas vezes nenhuma árvore restou, sol, chuva, seca; é essencial saber como tem sido a evolução do plantio em cada área para planejar o próximo passo”, conta Haroldo Gomes, coordenador de campo do projeto, assentado da reforma agrária e que está concluindo o doutorado.
Monitoramento comprova que as florestas são habitadas por fauna
Os resultados do projeto são acompanhados de perto por pesquisadores do projeto em parceria com estudantes e professores de instituições de ensino superior, como a Universidade Federal de Lavras, Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq/USP), Laboratório de Ecologia Espacial e Conservação (LEEC) da UNESP Rio Claro/SP, LabBMC – Laboratório de Biodiversidade Molecular e Conservação da UFSCar e a ESCAS – Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade, a escola do IPÊ.
Cameras trap e gravadores de áudio estão entre as tecnologias utilizadas para identificar o retorno da fauna às áreas restauradas. O projeto já identificou mais de 20 espécies de mamíferos de médio e grande porte que utilizam os corredores de novas florestas para travessias entre os fragmentos florestais da região. “Isso é a prova de que se trata de fato de trazer a floresta de volta. Os animais de topo de cadeia aprovaram esse trabalho”, destaca Laury Cullen, coordenador do projeto.
A iniciativa também funciona como um laboratório vivo para estudantes do Mestrado Profissional em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável e da pós-graduação da ESCAS/IPÊ, que conhecem de perto o potencial de transformação da restauração florestal. Cerca de 250 alunos da ESCAS já estiveram nas áreas de atuação do projeto. Apenas relacionadas à ESCAS, cerca de 30 teses de Mestrado já foram desenvolvidas sobre temas como restauração, monitoramento da biodiversidade, serviços ecossistêmicos, carbono, entre outros.



Maior corredor restaurado da Mata Atlântica
Já são 14 anos, desde que a restauração do maior corredor restaurado na Mata Atlântica foi concluída. Plantado de 2005 a 2011 com recurso de quatro financiadores, o corredor conecta as duas Unidades de Conservação da região: o Parque Estadual Morro do Diabo e a Estação Ecológica Mico-leão-preto passando pela Fazenda Rosanela. “São 12 km com 2,4 milhões de mudas de árvores plantadas, é a foto oficial do projeto Corredores de Vida. Até 2020, estávamos em um fluxo de menor escala, muito por conta dos investimentos. Parte importante do trabalho nesses 20 anos iniciais foi a captação de recurso para manter a equipe e avançar com os plantios. Até 2020, plantávamos de 100 a 200 hectares em 1 ano, hoje plantamos isso em um mês”, destaca Laury.

Crédito: Laurie Hedges
Por se tratar de uma grande planície, o plantio é mecanizado o que também favorece o ganho de escala. Os tratores utilizados no plantio são operados por um profissional, enquanto entre quatro e cinco profissionais realizam o plantio já integrado à irrigação. Com um trator e uma equipe de cinco a seis profissionais, atualmente, é possível plantar até 30 mil mudas/dia, cerca de 15 hectares.
Ganho de escala
De 2002 a 2020, o Mapa dos Sonhos, onde o projeto atuava, abrangia sete municípios Euclides da Cunha Paulista, Marabá Paulista, Mirante do Paranapanema, Presidente Epitácio, Rosana, Sandovalina e Teodoro Sampaio. A partir de 2021, já com 18 anos de história, a experiência do projeto em estabelecer corredores florestais garantiu ao IPÊ ampliar a área de atuação a partir da parceria com a Biofílica.

Nessa esfera foi criado o projeto ARR Corredores de Vida voltado para a geração de créditos de carbono. Do total de 260 mil hectares de passivos ambientais, na região do Pontal, a meta é restaurar 75 mil hectares de áreas prioritárias até 2041, com base no Mapa dos Sonhos ampliado que passou a incluir mais 23 municípios, totalizando 30.
Em 2022, o projeto foi reconhecido como o Melhor Projeto de Créditos de Carbono do Mundo (Best Individual Offsetting Project) pela Environmental Finance. A estimativa é remover 29 milhões de toneladas de CO₂e ao longo de 50 anos.