Com o olhar voltado para pesquisas, métodos e ferramentas que possam agregar à restauração florestal do projeto Corredores de Vida, cerca de 40 pessoas, entre proprietários e colaboradores de viveiros florestais, equipe técnica de campo e de coleta de sementes do IPÊ, participaram da formação, ministrada por integrantes da Sociedade Chauá, com conteúdo teórico e prático voltado à conservação da flora.
O curso Restauração, Coleta de Frutos e Sementes e Produção de Mudas Nativas realizado na sede do Parque Estadual Morro do Diabo, em Teodoro Sampaio, no Pontal do Paranapanema, na segunda quinzena de abril, contou com cinco módulos: conceitos básicos de vegetação e ecologia aplicados à produção de mudas e à restauração; busca e marcação de matrizes; identificação botânica; coleta de frutos e sementes; e produção de mudas em viveiros.

Parceria estratégica
Nesse contexto, a parceria com a Sociedade Chauá, organização que há mais de duas décadas desenvolve estudos sobre diversidade genética, especialmente de espécies arbóreas ameaçadas de extinção, foi a escolha da equipe do projeto Corredores de Vida. A formação tem como objetivo contribuir com a qualificação dos profissionais para a produção de mudas de árvores nativas com maior variabilidade genética e, consequentemente, mais resilientes às mudanças climáticas.
A conversa sobre levar a formação para o oeste paulista teve início em 2025, quando a equipe técnica do IPÊ e lideranças dos viveiros participaram de formação realizada na sede da Sociedade Chauá, no Paraná. A relevância do conteúdo, principalmente sobre diversidade genética e resiliência das florestas, levou a equipe do projeto a ampliar essa formação para os 23 viveiristas florestais que fornecem mudas para o projeto.
Para Aline Souza, coordenadora de projetos de Comunidade do IPÊ no Pontal do Paranapanema, a formação evidencia a importância da construção coletiva como pilar estratégico para a restauração ecológica. “A troca de experiência é fundamental para promover florestas plantadas com maior resiliência. O trabalho da Sociedade Chauá dialoga com a missão do IPÊ, e esse alinhamento mostra que não estamos sozinhos na busca pela conservação da biodiversidade”, reforça.
Marcação de matrizes e diversidade genética
Segundo André Sampaio, engenheiro florestal e doutor em Geografia, da Sociedade Chauá, a marcação de matrizes consiste na identificação e no registro de árvores nativas selecionadas como fonte de sementes e é feita com o uso de ferramentas de georreferenciamento, online ou offline, que permitem registrar com precisão as coordenadas de localização, esse trabalho desempenha um papel estratégico na restauração ecológica, ao reunir aspectos como qualidade genética, adaptabilidade, procedência, rastreabilidade e aumento da biodiversidade. “Ao identificar as matrizes, registrar as coordenadas via GPS e coletar sementes de diferentes árvores da mesma espécie, mantendo uma distância de 50 a 100 metros entre elas, evita-se o cruzamento entre indivíduos aparentados (como árvores-mãe e suas descendentes), além de ampliar a variabilidade genética, sendo esse um fator essencial para a evolução e a sobrevivência da espécie”, esclarece.

Nesse contexto, Sampaio destaca que, para produzir mudas mais resistentes e adaptadas a cada região, o ideal é coletar sementes em diferentes remanescentes florestais. Ele ressalta, no entanto, que essa prática ainda enfrenta um desafio importante em uma região como o Pontal do Paranapanema, historicamente marcada pelo desmatamento, onde a escassez de áreas conservadas dificulta o acesso a uma diversidade maior de matrizes. Ainda assim, selecionar cerca de 25 matrizes por espécie é uma forma de garantir uma boa variabilidade genética. “Esse manejo possibilita uma restauração de mais qualidade. Ainda são poucos os projetos que adotam essa prática, o que pode se tornar um diferencial do IPÊ, inclusive em editais voltados à restauração florestal”, explicou.
Já para Pablo Hoffmann, engenheiro florestal e diretor-executivo da Chauá, a troca de conhecimentos entre as instituições foi extremamente positiva. “Há mais de 20 anos atuamos na conservação de espécies nativas, com foco em árvores ameaçadas de extinção no estado do Paraná. Vir até o Pontal para compartilhar essa experiência é extremamente enriquecedor. Ao mesmo tempo, também levamos aprendizados daqui, que podem fortalecer e ampliar as ações de conservação no território paranaense”, destacou.
Do aprendizado ao planejamento
Esse conjunto de orientações já começa a se transformar em planejamento nos viveiros. É o que conta Gerson Paulino, que está há três anos à frente do viveiro Gerson: “O curso trouxe um aprendizado muito significativo. A ideia agora é colocar em prática no meu viveiro várias dessas orientações. Uma das primeiras será montar uma ficha para cada espécie, com dados da localização da matriz, nome popular, científico e a época do ano em que dá frutos. Essas anotações vão me ajudar a conhecer melhor as mudas que estou produzindo e a melhorar a qualidade da restauração como um todo”.

Esse aprendizado também vai aparecer na forma como os viveiristas vão organizar as informações de campo. Para Maria Florentino, do viveiro Alvorada, o principal avanço está no controle das matrizes: “Uma das primeiras ações que quero fazer é numerar e planilhar as árvores matrizes com as coordenadas de GPS. É um trabalho simples, mas que vai nos dar mais controle e conhecimento sobre as sementes que estamos coletando”.
Outro ponto reforçado durante o curso foi a importância de coletar sementes de diferentes pontos da copa da árvore, desde os mais baixos até os mais altos. Essa prática amplia as chances de que os frutos tenham sido polinizados por diferentes agentes, como abelhas sem ferrão, borboletas, aves, como o beija-flor, e mamíferos, como os morcegos, que também atuam na dispersão de sementes.
De acordo com Nivaldo Campos Ribeiro, coordenador dos viveiros florestais do IPÊ, os polinizadores têm papel fundamental na transferência de pólen entre árvores de uma mesma espécie, contribuindo para manter a diversidade genética e formar florestas mais resistentes a doenças e às mudanças climáticas. “Esse é um conhecimento que a gente já trabalha na assistência técnica, e que o curso vem reforçar e detalhar ainda mais para os viveiristas”.
Foi maravilhoso parabens equipe IPE