Crédito das fotos: Estúdio Matute
A instalação das pontes da segunda etapa do programa Alta Floresta Não Atropela será realizada de 3 a 20 de agosto; iniciativa já registrou quase 15 mil travessias de animais e contribui para a proteção de seis espécies de primatas amazônicos.
O município de Alta Floresta (MT) já conta, a partir deste mês, com oito novas pontes artificiais de dossel com a instalação da segunda etapa do programa Alta Floresta Não Atropela (AFNA), realizada entre os dias 3 e 20 de agosto de 2026. Com a ampliação, o município tem ao todo 15 estruturas destinadas a reconectar fragmentos florestais, permitir o deslocamento seguro de animais arborícolas – aqueles que vivem no dossel das árvores – reduzindo assim os atropelamentos de fauna nas vias urbanas.
A iniciativa é coordenada por Fernanda Abra, pesquisadora do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, que coordena o Projeto Reconecta. Fernanda é vencedora do Whitley Award 2024 e reconhecida pela National Geographic Society como National Geographic Explorer. As novas estruturas seguem o modelo técnico desenvolvido pelo Projeto Reconecta e incorporado às diretrizes nacionais do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).
Quase 15 mil travessias registradas
As primeiras sete pontes de dossel foram instaladas em Alta Floresta em outubro de 2024. Em 15 meses de monitoramento por câmeras, o programa registrou quase 15 mil travessias de animais silvestres. Seis espécies de primatas já utilizaram as estruturas, entre elas espécies raras e ameaçadas de extinção.
Desde a instalação das pontes, também não foram registrados novos atropelamentos de primatas nas áreas diretamente contempladas pelas estruturas. Os resultados demonstram o potencial dessas passagens para restabelecer a conectividade do dossel e reduzir os riscos enfrentados pela fauna em ambientes urbanos.
“Os resultados mostram que as pontes não são apenas estruturas experimentais: elas são utilizadas diariamente pelos animais e oferecem uma alternativa segura para o deslocamento entre os fragmentos florestais. Alta Floresta está demonstrando que é possível conciliar desenvolvimento urbano, segurança viária e conservação da biodiversidade”, afirma Fernanda Abra.
“O reconhecimento da National Geographic Society foi um marco para todos nós. Ele permitiu levar Alta Floresta e sua extraordinária biodiversidade a uma audiência global. Quando ciência, poder público, empresas e comunidade trabalham juntos, é possível transformar desafios locais em soluções capazes de inspirar outras cidades”, destaca Fernanda Abra.

Fernanda Abra acompanha de perto a instalação de mais um ponte em Alta Floresta (MT)
Oito novas pontes em pontos estratégicos
As novas pontes foram instaladas em quatro vias que concentram registros de incidentes envolvendo animais silvestres:
- quatro na Avenida Teles Pires;
- duas na Rua Raimundo Carlos de Figueiredo;
- uma na Avenida Jaime Veríssimo de Campos;
- uma na Avenida Mato Grosso.
As estruturas utilizam o sistema conhecido como “3 em 1”, formado por elementos que atendem às diferentes formas de locomoção dos animais: uma ponte com cordas entrecruzadas, uma ponte composta por cabo de aço e cordas trançadas e um cabo superior que auxilia o deslocamento de espécies com cauda preênsil.

Outra novidade desta etapa é a participação da Energisa na adequação da rede elétrica próxima às travessias. A empresa realizou o rebaixamento das redes e o isolamento dos cabos em dez pontos, incluindo duas pontes já existentes, para diminuir o risco de choques elétricos em animais silvestres.
Uma cidade amazônica com seis espécies de primatas
A área urbana e periurbana de Alta Floresta abriga seis espécies de primatas: o macaco-aranha-de-cara-preta (Ateles chamek), o zogue-zogue-de-Alta-Floresta (Plecturocebus grovesi), o sauim-de-Schneider (Mico schneideri), o bugio-ruivo-do-rio-Purus (Alouatta puruensis), o macaco-prego (Sapajus apella) e o macaco-da-noite (Aotus sp.).
Quatro delas estão ameaçadas de extinção em nível global. O zogue-zogue-de-Alta-Floresta é classificado como Criticamente em Perigo e foi descrito pela ciência apenas em 2019. Essa espécie é o animal símbolo de Alta Floresta. O macaco-aranha-de-cara-preta e o sauim-de-Schneider são classificados como Em Perigo, enquanto o bugio-ruivo-do-rio-Purus é considerado Vulnerável.
Essa diversidade confere à Alta Floresta uma importância singular para a conservação dos primatas amazônicos. Ao mesmo tempo, a expansão urbana e a abertura de vias fragmentam os remanescentes florestais, interrompem as rotas naturais de deslocamento e expõem os animais a atropelamentos, eletrocussões e outros riscos.
“Ver o zogue-zogue-de-Alta-Floresta, uma espécie que existe apenas na nossa região e que se tornou um símbolo da cidade, utilizando as pontes de dossel é algo emocionante. Cada travessia registrada representa uma oportunidade de sobrevivência para essa espécie criticamente ameaçada e reforça a importância de investirmos em soluções que mantenham a floresta conectada.” – Vitória Da Riva, Fundação Ecológica Cristalino
Modelo tornou-se referência nacional
O modelo de ponte de dossel desenvolvido pelo Projeto Reconecta e implementado em Alta Floresta passou a integrar as orientações técnicas nacionais para a mitigação dos impactos das rodovias sobre a fauna.
Em abril de 2026, o DNIT publicou o livro “Segurança Viária e Conservação da Fauna: Medidas de Mitigação para Reduzir Impactos sobre Animais Silvestres em Rodovias Federais Brasileiras”. A publicação apresenta diretrizes e projetos técnicos para diferentes medidas de mitigação, incluindo o modelo de ponte artificial de dossel adotado pelo programa.
Com a instalação das novas estruturas, Alta Floresta consolida-se como município amazônico pioneiro na aplicação de uma solução brasileira para redução de impactos causados pelas vias e pelo tráfego sobre a fauna silvestre.

Parceria entre ciência, poder público e iniciativa privada
A segunda etapa do Alta Floresta Não Atropela é realizada pela Prefeitura de Alta Floresta, por meio da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e Conselho Municipal de Segurança Pública, pelo Projeto Reconecta/IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas pela Energisa, pela Fazenda Anacã e pela Fundação Ecológica Cristalino.
O projeto conta com recursos e apoio da Whitley Fund for Nature, National Geographic Society, Sounds Right e Smithsonian’s National Zoo and Conservation Biology Institute.
A Prefeitura ofereceu contrapartidas para a aquisição de postes e cruzetas, disponibilização de caminhão munck e alimentação das equipes. A Fazenda Anacã contribuiu com hospedagem, alimentação e recursos humanos, enquanto a Fundação Ecológica Cristalino apoiou as ações de hospedagem, educação ambiental e divulgação.