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Bióloga brasileira recebe o Wayfinder Award da National Geographic Society

19 de junho de 202619 de junho de 2026 Por IPE

Fernanda Abra é pesquisadora do IPÊ no projeto RECONECTA e lidera soluções inovadoras que reconectam florestas e salvam a fauna dos impactos da infraestrutura viária no Brasil

A bióloga de conservação Fernanda Abra foi anunciada como uma das vencedoras do Wayfinder Award apresentado pela Kia, uma das mais prestigiadas honrarias concedidas pela National Geographic Society a líderes que estão desenvolvendo soluções inovadoras para os desafios mais urgentes do planeta.

O prêmio, entregue ontem (18 de junho), em cerimônia em Washington, D.C., concede o título de Exploradora da National Geographic, um aporte de US$ 50 mil, acesso a oportunidades de financiamento e integração à rede global de exploradores da Sociedade.

Reconhecida por sua atuação na interface entre infraestrutura e conservação da biodiversidade, Fernanda é cofundadora do Instituto Reconecta e da ViaFAUNA. É pesquisadora associada do Smithsonian National Zoo and Conservation Biology Institute, em Washington, D.C., e pesquisadora do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas com o projeto RECONECTA. Nos últimos anos, ela tem liderado iniciativas pioneiras para reduzir os impactos de rodovias sobre a fauna silvestre, especialmente na Amazônia brasileira, por meio da instalação de pontes de dossel que permitem a travessia segura de animais arborícolas.

“Receber o Wayfinder Award é uma grande honra, mas também um lembrete de que a conservação é construída por muitas mãos. Eu dedico este prêmio ao município de Alta Floresta e a todos os parceiros que acreditaram que poderíamos fazer diferente. Cada ponte de dossel que instalamos representa algo muito simples e profundamente importante: a oportunidade de um animal continuar seu caminho. Encontrar alimento, reencontrar seu grupo, reproduzir-se, sobreviver. Em um mundo onde as estradas ampliaram a liberdade de movimento das pessoas, nosso desafio é garantir que a vida silvestre também possa continuar exercendo esse direito fundamental de ir e vir. É isso que essas pontes representam para mim: esperança, coexistência e futuro”, afirma Fernanda Abra.

Projeto Reconecta: reconectando florestas fragmentadas

O prêmio destaca o sucesso do Projeto Reconecta, iniciativa que vem transformando a forma como a infraestrutura rodoviária é planejada em áreas de alta biodiversidade. Desde 2021, o projeto já instalou dezenas de pontes de dossel na Amazônia e registrou mais de 20 mil travessias seguras de animais silvestres, demonstrando que é possível conciliar desenvolvimento e conservação.

O início de uma nova geração de pontes para a fauna

O sucesso do Projeto Reconecta teve início na Amazônia, ao longo da BR-174, rodovia que atravessa a Terra Indígena Waimiri-Atroari, entre os estados do Amazonas e Roraima. Em 2021, o projeto liderou a instalação de 32 pontes de dossel artificiais ao longo da rodovia, na maior iniciativa desse tipo já realizada em uma estrada tropical.

A ação foi desenvolvida em colaboração com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e a comunidade indígena Waimiri-Atroari, que participou ativamente da identificação dos locais prioritários, da instalação das estruturas e do monitoramento da fauna. O projeto transformou um histórico conflito entre infraestrutura e conservação em um exemplo de cooperação entre ciência, governo e povos indígenas para proteger a biodiversidade amazônica.

Da pesquisa científica à política pública

Ao longo dos últimos anos, as pontes de dossel do Projeto Reconecta foram continuamente aperfeiçoadas para atender às necessidades de diferentes espécies arborícolas. A partir de pesquisas científicas conduzidas em parceria com o Smithsonian National Zoo and Conservation Biology Institute, a equipe desenvolveu um modelo multicamadas capaz de acomodar diferentes formas de locomoção utilizadas por primatas, marsupiais, roedores e outros mamíferos arborícolas.

O reconhecimento da eficácia desse modelo ultrapassou os limites do Projeto Reconecta. Em 2026, o novo desenho de ponte de dossel desenvolvido pela iniciativa foi incorporado como o modelo padrão recomendado pelo DNIT para implantação em rodovias federais brasileiras. As diretrizes foram publicadas no livro “Segurança Viária e Conservação da Fauna: Medidas de Mitigação para Reduzir Impactos sobre Animais Silvestres em Rodovias Federais Brasileiras”, consolidando uma importante referência nacional para a infraestrutura sustentável.

Alta Floresta: quase 15 mil travessias seguras em apenas 15 meses

Um dos resultados mais emblemáticos do Projeto Reconecta foi alcançado no município de Alta Floresta, no norte de Mato Grosso. Em apenas 15 meses de monitoramento, as sete pontes de dossel instaladas na cidade registraram quase 15 mil travessias de animais arborícolas, incluindo espécies ameaçadas e de grande relevância para a conservação da Amazônia, como o zogue-zogue-de-Alta-Floresta (Plecturocebus grovesi), o macaco-aranha-de-cara-preta (Ateles chamek), o bugio-ruivo (Alouatta puruensis), o mico-de-Schneider (Mico schneideri), o macaco-da-noite (Aotus infulatus) e o macaco-prego (Sapajus apella).

Entre todas essas espécies, o grande símbolo da iniciativa é o zogue-zogue-de-Alta-Floresta, um primata descrito pela ciência apenas em 2019 e classificado como Criticamente Ameaçado de Extinção. Encontrado exclusivamente em uma pequena região do norte de Mato Grosso, o zogue-zogue depende das copas das árvores para se deslocar, encontrar alimento e reproduzir-se. A fragmentação causada pela expansão urbana e pela infraestrutura de transportes transformou ruas e avenidas em barreiras para a espécie. As pontes de dossel oferecem uma solução direta para esse desafio, permitindo travessias seguras e contribuindo para a conservação de uma espécie que existe apenas nessa região do planeta.

“Ver o zogue-zogue-de-Alta-Floresta, uma espécie que existe apenas na nossa região e que se tornou um símbolo da cidade, utilizando as pontes de dossel é algo emocionante. Cada travessia registrada representa uma oportunidade de sobrevivência para essa espécie criticamente ameaçada e reforça a importância de investirmos em soluções que mantenham a floresta conectada”, afirma Vitória Da Riva, da Fundação Ecológica Cristalino.

Uma aliança pela conservação urbana

Esses resultados são fruto do programa Alta Floresta Não Atropela, uma iniciativa municipal criada para reduzir atropelamentos de fauna e promover a conectividade da paisagem em uma das regiões mais importantes para a biodiversidade amazônica.

O programa reúne esforços da Prefeitura de Alta Floresta, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, da Secretaria de Trânsito, do Instituto Reconecta, da Fundação Ecológica Cristalino, da Fazenda Anacã, da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), além de organizações da sociedade civil, proprietários rurais, financiadores e diversos parceiros nacionais e internacionais comprometidos com a conservação da fauna.

“O Reconecta e o Programa Alta Floresta Não Atropela transformaram Alta Floresta em uma referência para a conservação da fauna em áreas urbanas da Amazônia. Os resultados demonstram que, com ciência, parceria e planejamento, é possível proteger a biodiversidade e promover o desenvolvimento sustentável”, diz Gercilene Meira Leite, Secretária Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Alta Floresta.

“Para nós, é uma grande honra ter três pontes de dossel instaladas próximas à Fazenda Anacã. As pontes ajudam a manter os animais seguros e, ao mesmo tempo, fortalecem o turismo de natureza, permitindo que visitantes conheçam a extraordinária biodiversidade da região. É um excelente exemplo de como conservação e desenvolvimento econômico podem caminhar juntos”, comenta Fernão Prado, Fazenda Anacã.

Olhando para o futuro

O reconhecimento da National Geographic Society chega em um momento de expansão do Projeto Reconecta. Em Alta Floresta, a iniciativa prevê a instalação de mais oito pontes de dossel, ampliando a conectividade para espécies ameaçadas da A

mazônia. A implementação dessas estruturas depende de uma parceria estratégica com a Energisa para adequações na rede elétrica.

Além disso, o projeto avançará para o município de Lucas do Rio Verde, onde estão previstas dez novas pontes de dossel em áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade local.

Nos próximos anos, o Instituto Reconecta pretende ampliar sua atuação para outros municípios, estados e rodovias brasileiras, consolidando uma rede nacional de iniciativas voltadas à redução de atropelamentos de fauna e à restauração da conectividade ecológica.

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