Nos últimos três anos, o número de mulheres envolvidas no Projeto Corredores de Vida passou de 39 para 92, crescimento de 135%
Restaurar uma floresta envolve muito mais do que plantar árvores. É preciso articular pessoas, conhecimento, trabalho de forma que o resultado traga a biodiversidade de volta e represente oportunidade de crescimento para os profissionais envolvidos. No projeto Corredores de Vida, do IPÊ, a participação das mulheres vem crescendo e ocupando diferentes espaços na cadeia da restauração florestal, incluindo em posições de liderança, no Pontal do Paranapanema, oeste paulista.
Em 2023, eram 39 mulheres diretamente envolvidas nas atividades do projeto. Em agosto de 2026, esse número chegou a 92, entre profissionais da equipe técnica, dos viveiros florestais e das empresas de plantio e manutenção. O que representa aumento de 135%, no período.
Atualmente, as mulheres correspondem a cerca de 25% das 362 pessoas envolvidas diretamente no projeto. Elas estão presentes em diferentes funções e têm assumido responsabilidades técnicas, empresariais e de liderança em uma cadeia que movimenta a restauração florestal no território.
Uma presença que cresceu junto com o projeto
A trajetória da bióloga Williana Marin, a primeira mulher a integrar a equipe técnica do projeto, ajuda a contar parte dessa transformação. Entre 2004 e 2006, Williana atuou como estagiária e, em 2007, passou a fazer parte da equipe como extensionista. Em 2010, foi promovida a gerente financeira. “Por 10 anos fui a única mulher no projeto, e hoje 70% da equipe técnica, que conta com 19 profissionais, é formada por mulheres. É um orgulho ter aberto o caminho para elas. Enfrentei e venci desafios, mas ainda há muitos paradigmas a serem quebrados. Nós mulheres, infelizmente, precisamos mostrar todos os dias que tecnicamente estamos no mesmo patamar que os homens”, conta.

Em 2015, a entrada de novas profissionais começou a mudar esse cenário, a bióloga Aline Souza passou a integrar a equipe, seguida, em 2021, pela jornalista Ana Lilian Pereira, e no próximo ano pela engenheira florestal Amanda Garbim Ceballos.
A partir de 2021, já com 18 anos de história, a experiência do projeto em estabelecer corredores florestais garantiu ao IPÊ ampliar a área de atuação a partir da parceria com a Biofílica. Nessa esfera foi criado o projeto ARR Corredores de Vida voltado para a geração de créditos de carbono. Do total de 260 mil hectares de passivos ambientais, na região do Pontal, a meta é restaurar 75 mil hectares de áreas prioritárias até 2041, com base no Mapa dos Sonhos ampliado que passou de sete para 30 municípios. O número de mudas de árvores plantadas aumentou de 475 mil em 2021, para 1,5 milhão de mudas em 2022. No acumulado, em 26 anos, já são de 13 milhões de mudas de árvores plantadas.
Com essa ampliação da demanda, a presença de mulheres deixou de estar concentrada na equipe técnica e passou a fazer parte de diferentes etapas da cadeia, desde os viveiros até as empresas que realizam o plantio e manutenção das áreas.
De viveiristas a proprietárias de empresas
Entre os 23 viveiros que integram a cadeia da restauração, 10 são liderados por mulheres. Das 21 empresas de plantio e manutenção, nove têm mulheres na liderança, além de uma cooperativa que atua com plantio também liderada por uma mulher.
Elas também atuam em atividades que envolvem tecnologia e conhecimento técnico, como operação de drones, monitoramento de fauna por cameras trap, uso de aplicativos e geoprocessamento. Há ainda mulheres que operam tratores e desempenham funções diretamente relacionadas ao trabalho de campo.
Para Aline Souza, coordenadora de Iniciativas com Comunidades do IPÊ, a mobilização das mulheres cria espaços importantes para discutir desafios que ainda fazem parte do cotidiano profissional. “Nesses espaços, elas compartilham desafios, trocam experiências, identificam oportunidades e constroem juntas caminhos para um ambiente de trabalho mais seguro, equitativo e justo”.

Foi com esse propósito que cerca de 100 mulheres participaram, na primeira quinzena de setembro, da segunda edição da Sexta ConsCiência Elas Restauram: Mulheres, Floresta, Equidade e o Protagonismo Feminino na Restauração, realizada na sede do Parque Estadual Morro do Diabo, em Teodoro Sampaio, no Pontal do Paranapanema.
Conquistas e desafios ainda presentes
Durante a programação, Patrícia Crecembeni, diretora municipal de Políticas Públicas para Mulheres, falou sobre conquistas históricas e desafios que ainda permanecem para a participação feminina em diferentes espaços da sociedade.

Entre os avanços, foram lembrados o direito ao voto, conquistado pelas mulheres brasileiras em 1932, a regulamentação do divórcio, em 1977, e o reconhecimento, pela Constituição Federal de 1988, da igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres.
No entanto, os avanços não eliminaram as barreiras encontradas pelas mulheres no mercado de trabalho, especialmente quando ocupam posições de liderança ou funções tradicionalmente desempenhadas por homens.
Vanessa Carvalho, proprietária da Carvalho Reflorestamento, contou que, nos primeiros meses à frente da empresa, precisou lidar com a resistência de colaboradores homens. “Geralmente, quando eu passava uma atividade para a equipe, composta por homens, eles iam validar com meu pai, meu braço direito em campo. Eles precisavam ouvir da boca do meu pai a orientação que eu havia passado”.
A gestora ambiental e sócia-proprietária da Mafran Ambiental, Marta da Silva, também compartilhou uma experiência relacionada ao reconhecimento de sua competência técnica. “Já houve casos que, mesmo eu sendo a detentora do conhecimento técnico para executar o serviço, os clientes não vinham até mim. Mesmo meu sócio, que sempre me apoiou, enfatizando minha competência, eu era sempre deixada de lado pelos contratantes”.
Os relatos ajudam a mostrar que ampliar a presença das mulheres é apenas parte do processo. Para que essa participação se traduza em equidade, também é necessário criar condições para que elas sejam reconhecidas por suas competências e tenham espaço para participar das decisões.
Da troca de experiências à construção de novos caminhos
O encontro deu continuidade a um processo iniciado em 2025, quando a primeira edição da Sexta ConsCiência dedicada às mulheres levou à criação do Grupo de Trabalho de Equidade de Gênero (GTEG). O grupo se tornou um espaço permanente de diálogo e construção coletiva sobre equidade de gênero na cadeia da restauração florestal.
Agora, os relatos e percepções reunidos durante a segunda edição também terão continuidade. As experiências compartilhadas serão sistematizadas e poderão contribuir para um estudo sobre equidade de gênero na cadeia da restauração florestal.
A proposta é transformar essas percepções em informações que ajudem a identificar desafios e acompanhar avanços na construção de ambientes de trabalho mais inclusivos, tanto no projeto Corredores de Vida quanto em outras iniciativas.
O material será compilado por Aline Souza e Vanessa Stamberg, analista de projetos da Biofílica, empresa parceira do IPÊ no Projeto ARR Corredores de Vida. Entre as ações previstas estão a elaboração de uma carta destinada ao projeto, reunindo as experiências relatadas pelas participantes, e a sistematização de indicadores relacionados à equidade de gênero.
Vanessa, que também é mestranda na ESCAS, escola do IPÊ, pesquisa como transformar as percepções das mulheres em informações que possam ser acompanhadas, divulgadas e utilizadas em outros projetos. “Que esse material possa extrapolar a área ambiental e que a voz das mulheres ecoe na sociedade, para que as pessoas mudem os estereótipos e passem a enxergar as mulheres como profissionais competentes, com habilidades para fazer aquilo que escolherem”, pontua Aline.
A participação das mulheres na restauração florestal do Pontal mostra uma transformação: elas estão ocupando novos espaços, assumindo responsabilidades e ampliando presença em diferentes frentes. Mais do que aumentar números, a proposta é garantir que essa participação seja acompanhada de reconhecimento, diálogo e oportunidades. Afinal, restaurar florestas também significa construir, no território, relações de trabalho mais justas e inclusivas.