Temperatura acima da média, com maior probabilidade de ondas de calor em todas as regiões do país está entre os potenciais efeitos do El Niño entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027. Segundo o INMet – Instituto Nacional de Meteorologia e órgãos parceiros, a chance de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro é de 95%. Na região do Sistema Cantareira – onde o IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas atua com o Programa Semeando Água, em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, estabelecida por meio de convênio entre as duas instituições – as projeções indicam calor acima da média e um cenário de chuvas favorável, o que não é sinônimo de segurança hídrica.
O alto volume de chuva de setembro ajuda a contar essa história. Dados do último relatório do Cemaden – Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, de outubro, chamam atenção para o fato de que o aumento de 342% da precipitação média sobre o Sistema Cantareira contribuiu com alta de 234% da vazão média, mas o armazenamento do sistema ficou em cerca de 40% da capacidade. No acumulado de chuvas no período de seca – de abril a setembro – o volume foi três vezes superior à média histórica, no entanto, isso refletiu em 10% de alta no volume do Cantareira em relação ao ano passado.
“A percepção dos reservatórios cheios cria uma ilusão de que a situação é confortável, quando na verdade não é. O aumento real da segurança hídrica está vinculado ao armazenamento de água no sistema, o que significa água absorvida pelo solo. As projeções de um verão mais quente indicam aumento da evapotranspiração, com maior perda de umidade do solo e maior evaporação dos reservatórios, o que tende a reduzir a água armazenada no Sistema como um todo”, destaca a pesquisadora Letícia Duarte, que atua no Projeto Semeando Água, durante apresentação no último mês da pesquisa que realizou focada no reservatório Atibainha, na região do Sistema Cantareira, no Simpósio Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável, da ESCAS, a escola do IPÊ, por onde já passaram mais de 8.500 alunos, do Mestrado Profissional, da Pós-graduação, de cursos de curta duração e in company.Durante pesquisa realizada no Mestrado na ESCAS, Letícia identificou as áreas prioritárias para concentrar esforços de conservação, restauração e melhoria dos sistemas produtivos e assim gerar o maior benefício socioambiental possível na região do Sistema Cantareira. “Olhei para uma das cinco sub-bacias do Sistema, a do rio Atibainha, em Nazaré Paulista e Piracaia, ambos municípios do estado de São Paulo, e por meio de softwares de modelagem simulei o ciclo hidrológico na bacia para identificar as áreas mais importantes para produção de água e controle de sedimentos”.

Letícia Duarte compartilha seu trabalho durante o Simpósio
As áreas prioritárias, segundo Letícia, estão localizadas na porção norte da bacia, em Piracaia – na região próxima da nascente do rio Atibainha, que chegam a produzir cerca de cinco vezes mais água (627.56 mm – 956.90 mm) do que nas regiões que respondem pelos menores volumes (0.00 – 161.15 mm). “Essas áreas da porção norte e cabeceiras da bacia são as mais importantes para recarga hídrica no aquífero profundo, o que é essencial tendo em vista a contribuição mais perene para os reservatórios, menos suscetível a oscilações relacionadas com as estações do ano e condições climáticas de seca vs. chuva. Essas áreas também são as que perdem menos solos e produzem menos sedimentos, contribuindo para manutenção de uma melhor qualidade de água gerada na bacia e armazenada no reservatório”, esclarece a pesquisadora. Após o Mestrado, Letícia, que segue desenvolvendo estudos na região, analisou o impacto de diferentes soluções baseadas na natureza para aumentar a resiliência do sistema, diante de três condições climáticas. A restauração florestal e os sistemas produtivos sustentáveis despontaram como as melhores estratégias para conservação da água na região do reservatório Atibainha.
Alexandre Uezu, pesquisador no IPÊ e professor da ESCAS, que mediou o tema Restauração, no Simpósio, alerta sobre os potenciais efeitos do El Niño. “Se fosse um verão típico, dentro da média, entraríamos com cerca de 40% de volume do Cantareira na estação chuvosa – outubro a março – e normalmente subiria para 60% até o fim desse período, para enfrentar o próximo período seco. No entanto, como no atual cenário existe a ameaça de um verão mais seco, isso, de fato, representa um risco”.
Com os efeitos das mudanças do clima e neste ano sob a influência do El Niño, muitos têm questionado a relevância da média histórica e Uezu explica a relevância. “A média histórica ajuda a gente a entender a mudança em termos de volume, não dá para descartar, mas é preciso considerar o aumento da variabilidade”.
Educação como estratégica na formação de cidadãos
Andrea Pupo, coordenadora do projeto Escolas Climáticas, realizado na região do Sistema Cantareira, reforçou, durante o Simpósio, o potencial das ações de educação ambiental com alunos como estratégia para formar cidadãos comprometidos com os desafios locais e interessados em acompanhar os temas de meio ambiente e mudanças climáticas. Os resultados reforçam o potencial de vivências na natureza cinco anos após as atividades.

Andrea Pupo durante apresentação no Simpósio Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável, da ESCAS
“Durante meu trabalho de mestrado na ESCAS, a escola do IPÊ, analisei 90 estudantes dos Ensinos Fundamental II e Médio de Nazaré Paulista que participaram de ações de educação ambiental por ao menos três anos letivos e comparei os resultados com os de 90 estudantes que nunca participaram de qualquer atividade. No grupo 1, cerca de 40% dos jovens lembravam de notícias relacionadas ao meio ambiente mesmo após três anos da participação nas atividades de educação ambiental. Enquanto no grupo 2 menos de 10%. Outro dado que chama a atenção é a mobilização social. Enquanto o grupo 1, os jovens mesmo até três anos depois participaram de coleta de resíduos na represa ou ainda de combate a pequenos focos de incêndios. No grupo 2, a mobilização em prol do coletivo não existiu”. O projeto Escolas Climáticas é fruto da parceria entre o IPÊ e o Instituto Alair Martins (IAMAR) e nasceu dentro do Programa Semeando Água.
Em tempos de mudanças climáticas e de El Niño – vivências como essa que articulam uma série de conhecimentos e aproximam os jovens de desafios reais e locais – são vistas como diferenciais não apenas de forma imediata, mas em especial no longo prazo.
Para Cristiana Martins, coordenadora do Mestrado Profissional da ESCAS, a escola do IPÊ, que atua com alunos na outra ponta – a da pós-graduação – experiências baseadas em ciência com aplicação prática provocam outra resposta tanto em jovens quanto em adultos. “O cenário atual está repleto de desafios, mas também de oportunidades. Reconhecer a dimensão do desafio, identificar o potencial de ações locais e regionais, articular conhecimentos, ter empatia com diversos públicos e a partir disso propor soluções são capacidades que já são e serão cada vez mais valorizadas. Esse compromisso com a realidade está presente tanto nas formações vinculadas aos projetos do IPÊ quanto nas aulas do Mestrado”. Os trabalhos mencionados acima foram apresentados em evento na sede do Instituto em comemoração aos 30 anos da ESCAS, a escola do IPÊ.