Para apoiar jornalistas na cobertura da pauta das colisões veiculares com fauna, que envolve inúmeros atores: gestores (públicos ou privados), agentes licenciadores e fiscalizadores, usuários e animais, a INCAB – Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB), projeto do IPÊ, lança o Guia para Cobertura Jornalística: Colisões Veiculares com Fauna em rodovias. A publicação traz dados do Brasil, histórico do Mato Grosso do Sul, que lidera o ranking nacional de colisões com fauna, bem como medidas e orientações para os usuários das rodovias.
Cerca de 9 milhões de mamíferos de médio e grande porte morrem anualmente nas rodovias brasileiras por colisões com veículos. Somente nas rodovias federais, que correspondem a 5% de toda a malha rodoviária do país, foram registradas 1.286 perdas de vidas humanas entre janeiro de 2019 e março de 2025, decorrentes de colisões com fauna. As informações são do estudo publicado na revista Diversity em 2022, com base em 62 artigos científicos e relatórios de monitoramento.
A lei atribui aos gestores dos empreendimentos rodoviários a responsabilidade pela segurança das rodovias. No entanto, a quarta maior malha rodoviária do mundo, a brasileira, carece de medidas de mitigação efetivas com potencial de reduzir em 80% o número dessas colisões.
O jornalismo tem como uma de suas missões fornecer informações de interesse público, e a compreensão de que rodovias seguras são direito de cada usuário se enquadra nesse interesse — por se tratar de segurança pública.
Problema com solução
A ciência comprova que a associação de passagens inferiores para fauna (túneis sob as rodovias) com o cercamento adequado da via reduz as colisões em 80%. “Temos diversas organizações de pesquisa e conservação de extrema competência que vêm trabalhando há décadas no monitoramento e na implementação de medidas para solucionar esta problemática no estado. O conhecimento acumulado é vastíssimo e contamos com todas as ferramentas necessárias para orientar iniciativas de mitigação de colisões entre veículos e a fauna nas rodovias estaduais, federais e concessionadas. Entretanto, em relação ao Mato Grosso do Sul há uma absoluta falta de vontade política por parte dos gestores dessas rodovias de mudar o cenário do estado. Enquanto isso, as pessoas continuam arriscando suas vidas– e, de fato, morrendo– ao trafegar pelas rodovias do MS. Além disso, é um absurdo que um estado que recebe milhares de turistas anualmente (262.000 pessoas em 2024, de acordo com o PNAD,IBGE)– turistas estes que esperam desfrutar das belezas naturais no Pantanal, Bonito e tantos outros destinos– tenham a experiência horrível de se deparar com um mar de animais atropelados pelo caminho!”, afirma Patrícia Medici, Coordenadora da INCAB-IPÊ.
Colisões veiculares com fauna são um problema multifatorial. Um dos desafios por trás da temática é a falta de compreensão sobre a quem cabe a responsabilidade em caso de colisão com um animal silvestre. É preciso entender as responsabilidades de cada envolvido para, assim, exigir e implementar as mudanças necessárias em busca de rodovias seguras. O Código de Defesa do Consumidor assegura a todos os que trafegam na malha viária do país o direito a um serviço seguro. Além disso, a Constituição Federal garante que o Poder Público é responsável pela proteção do meio ambiente ecologicamente equilibrado.
Anualmente, nas rodovias do Mato Grosso do Sul, em média, 100 antas são mortas, o que significa ao menos 100 pessoas são envolvidas em colisões graves com animais de grande porte. A anta é o maior mamífero terrestre da América do Sul e pode chegar a 300 kg. Por isso, uma colisão com a espécie resulta em danos materiais e/ou perdas humanas.