“Um ninho de saúvas corta até uma tonelada de folhas ao ano. Uma muda de árvore não suporta três cortes sucessivos de formigas. Por isso, o conhecimento técnico para o controle desse inseto é importante para a formação de florestas, além de evitar replantio e custos adicionais”, a explicação é da professora doutora Vânia Maria Ramos, da Unoeste – Universidade do Oeste Paulista, durante a 3ª edição do curso Formigas Cortadeiras em Áreas Florestais, realizado este mês, em Teodoro Sampaio/SP. A iniciativa do projeto Corredores de Vida, do IPÊ, teve como público-alvo, profissionais de campo do IPÊ e das 21 empresas florestais que prestam serviços de plantio e manutenção para o projeto.
A formação continuada da própria equipe e dos profissionais que atuam nas empresas prestadoras de serviços tem sido uma das fortalezas para o ganho de escala do projeto Corredores de Vida, que já plantou mais de 13 milhões de mudas de árvores nativas da Mata Atlântica no Pontal do Paranapanema, extremo oeste paulista, até junho de 2026.
Formigas de fato representam uma ameaça. Esses insetos cortam folhas e brotos que são levados para os ninhos e utilizados no cultivo dos fungos que alimentam a colônia. As formigas cortadeiras dos gêneros Atta (saúvas) e Acromyrmex (quenquéns) são as mais comuns na região. O controle de formigas cortadeiras antecede o plantio e é fundamental para o estabelecimento das mudas. Previamente ao plantio, as áreas passam pelo controle de formigas e durante quatro anos as mudas plantadas, são monitoradas ativamente, tanto para o controle de formigas quanto para mato-competição.
Nos anos seguintes, o controle de formigas passa a ser pontual e pode ocorrer por até dez anos, período considerado seguro para a consolidação da floresta plantada. No entanto, mesmo em áreas mais antigas, caso a equipe técnica identifique um formigueiro com potencial de comprometer o desenvolvimento da floresta, o controle é realizado. “O acompanhamento ao longo dos anos é fundamental para garantir que as mudas tenham condições de se desenvolver e se transformar, de fato, em uma floresta”, explica Haroldo Borges Gomes, coordenador de campo no projeto Corredores de Vida, do IPÊ.
Com 52 participantes o curso alinhou teoria e prática. A primeira parte foi ministrada na sede do Parque Estadual Morro do Diabo. Já no Banco de Sementes do IPÊ, um formigueiro ativo foi utilizado como objeto de estudo. Os participantes tiveram a oportunidade de calcular o tamanho do ninho em m2, a quantidade de iscas e os pontos estratégicos para aplicação das iscas; tudo com a supervisão e orientação da especialista no assunto.


É preciso entender para manejar
Para a professora Vânia, compreender o ciclo de vida das formigas é fundamental para os profissionais que atuam no campo desenvolverem um manejo de qualidade. O conhecimento engloba desde a revoada, período de acasalamento, até o momento que insetos saem do ninho para cortar folhas.
As formigas são insetos sociais e desempenham diferentes funções dentro da colônia. Segundo a pesquisadora, cada ninho possui uma rainha, responsável pela reprodução, além de diferentes grupos que atuam no cuidado dos fungos, na escavação dos ninhos, na defesa da colônia e no corte e transporte das folhas.
Entre as opções de inseticidas disponíveis no mercado, a professora aponta a isca tóxica como uma das formas mais viáveis de manejo das formigas cortadeiras. O produto é levado pelas próprias formigas até as câmaras de fungos, que servem de alimento para a colônia, provocando a contaminação dessa fonte alimentar. De acordo com Vânia, o método é prático e econômico, apresenta degradação rápida e baixa toxidade, características que, segundo ela, tornam seu uso mais seguro para as pessoas que realizam o manejo e para o meio ambiente.
Benefícios e conhecimento
De acordo com a professora, embora as formigas cortadeiras possam trazer prejuízos elas também têm papel fundamental no ecossistema como aeração do solo, ciclagem de nutrientes, entre outros benefícios.
Para Matheus Caetano, agrônomo e líder de campo, na MM Soluções Ambientais, com experiência de quatro anos em reflorestamento com espécie nativas, o curso trouxe aprendizados que serão aplicados no campo nos próximos dias. “Aprendi com precisão como calcular a quantidade de gramas de iscas a serem aplicadas por ninho. Agora tenho informações para não desperdiçar produto em campo. Tudo que aprendi aqui vou replicar para minha equipe”.
Segundo Maylon Henrique da Silva, colaborador há quatro meses, na WVB Ambiental e Agrimensura Ltda, o que mais chamou atenção foi o local adequado para colocar os saquinhos com as iscas. “Não pode ser no carreiro das formigas, e sim a alguns centímetros de distância do carreiro, para atrair os insetos pelo cheiro que vão buscar as iscas”.