A bióloga de conservação Fernanda Abra foi anunciada como uma das vencedoras do Wayfinder Award apresentado pela Kia, uma das mais prestigiadas honrarias concedidas pela National Geographic Society a líderes que estão desenvolvendo soluções inovadoras para os desafios mais urgentes do planeta.
O prêmio, entregue ontem (18 de junho), em cerimônia em Washington, D.C., concede o título de Exploradora da National Geographic, um aporte de US$ 50 mil, acesso a oportunidades de financiamento e integração à rede global de exploradores da Sociedade.
Reconhecida por sua atuação na interface entre infraestrutura e conservação da biodiversidade, Fernanda é cofundadora do Instituto Reconecta e da ViaFAUNA. É pesquisadora associada do Smithsonian National Zoo and Conservation Biology Institute, em Washington, D.C., e pesquisadora do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas com o projeto RECONECTA. Nos últimos anos, ela tem liderado iniciativas pioneiras para reduzir os impactos de rodovias sobre a fauna silvestre, especialmente na Amazônia brasileira, por meio da instalação de pontes de dossel que permitem a travessia segura de animais arborícolas.
Prêmio é resultado coletivo
“Receber o Wayfinder Award é uma grande honra, mas também um lembrete de que a conservação é construída por muitas mãos. Eu dedico este prêmio ao município de Alta Floresta e a todos os parceiros que acreditaram que poderíamos fazer diferente. Cada ponte de dossel que instalamos representa algo muito simples e profundamente importante: a oportunidade de um animal continuar seu caminho. Encontrar alimento, reencontrar seu grupo, reproduzir-se, sobreviver. Em um mundo onde as estradas ampliaram a liberdade de movimento das pessoas, nosso desafio é garantir que a vida silvestre também possa continuar exercendo esse direito fundamental de ir e vir. É isso que essas pontes representam para mim: esperança, coexistência e futuro”, afirma Fernanda Abra.
O reconhecimento da National Geographic Society chega em um momento de expansão do Projeto Reconecta. Em Alta Floresta, a iniciativa prevê a instalação de mais oito pontes de dossel, ampliando a conectividade para espécies ameaçadas da Amazônia. A implementação dessas estruturas depende de uma parceria estratégica com a Energisa para adequações na rede elétrica.
Além disso, o projeto avançará para o município de Lucas do Rio Verde, onde estão previstas dez novas pontes de dossel em áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade local.
O prêmio destaca o sucesso do Projeto Reconecta, iniciativa que vem transformando a forma como a infraestrutura rodoviária é planejada em áreas de alta biodiversidade. Em 2024, Fernanda também recebeu o Whitley Awards pelo IPÊ, com essa iniciativa.
No projeto, Fernanda e parceiros constroem pontes de dossel de baixo custo e monitora mamíferos arborícolas sobre a rodovia BR-174, que atravessa a Terra Indígena Waimiri-Atroari, entre os estados do Amazonas e Roraima, cortando a Floresta Amazônica. Até agora, Fernanda e equipe construíram 32 pontes artificiais na copa das árvores para restaurar a conectividade da floresta para a vida silvestre e, apenas em 2022, elas já foram usadas por oito espécies arbóreas, incluindo o sagui-de-mão-dourada – um importante símbolo cultural para os Waimiri-Atroari, comunidade indígena local que participa ativamente do projeto.
A ação foi desenvolvida em colaboração com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e a comunidade indígena Waimiri-Atroari, que participou ativamente da identificação dos locais prioritários, da instalação das estruturas e do monitoramento da fauna. O projeto transformou um histórico conflito entre infraestrutura e conservação em um exemplo de cooperação entre ciência, governo e povos indígenas para proteger a biodiversidade amazônica. Atualmente, ele faz parte do programa municipal Alta Floresta Não Atropela.
