Projeto Tatu-canastra completa 10 anos com grandes avanços para a pesquisa da espécie

 

Pesquisadores do projeto Tatu-Canastra, realizado pelo IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas e o Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS), comemoram em 30 de julho a primeira década do projeto que tem como marca registrada a inovação. 

Nesses 10 anos, a iniciativa documentou o importante papel dos tatus como engenheiros dos ecossistemas e gerou dados consistentes sobre a ecologia espacial das espécies e a sua seleção de habitats. Estudos sobre saúde, genética, dieta e reprodução completam essa pesquisa que é referência no Brasil.

TatuNo Projeto, pesquisadores registraram, pela primeira vez na história, por meio de cameras trap (armadilhas fotográficas), um filhote de tatu-canastra na natureza. Em 10 anos de projeto, a equipe já registrou e monitorou quatro tatus filhotes.

O projeto Tatu-Canastra começou no Pantanal do Mato Grosso do Sul (fazenda Baía das Pedras), em 2010, e expandiu suas ações, ao longo dos anos, para áreas de Cerrado (Mato Grosso do Sul) e da Mata Atlântica (Minas Gerais e Espírito Santo), chegando ao Chaco da Argentina. De volta ao Brasil, na Amazônia, o projeto realizou estudo sobre atropelamentos em parceria com instituições nacionais e internacionais.

O maior dentre as 20 espécies de tatus, o tatu-canastra (Priodontes maximus) pode chegar a 1.5 m de comprimento (do focinho à cauda) e pesar mais de 50 quilos. É um animal classificado como vulnerável pela lista vermelha de espécies ameaçadas da IUCN – União Internacional para Conservação da Natureza. 

Engenheiros da natureza beneficiam também outras espécies

“Embora raramente visto, o tatu-canastra é uma espécie que precisa ser melhor compreendida e protegida. Identificamos que eles desempenham papel fundamental na comunidade ecológica como engenheiros dos ecossistemas a partir das escavações que fazem para suas tocas. Dezenas de animais se beneficiam da cavação do tatu, seja na própria toca ou fora dela, como refúgio térmico, abrigo contra predadores, área de alimentação ou de descanso. A anta e até mesmo onças-pardas foram fotografadas usando o monte (da cavação do tatu) como um ponto de descanso. Muitas espécies procuraram presas no local (lagarto, teiú, pequenos roedores, quatis) e também na entrada da toca (seriema, pequenos roedores, guaxinim, jaguatirica, irara)”, comenta Arnaud Desbiez, coordenador do Projeto Tatu-Canastra.  Equipe Tatu Small

As tocas construídas pelo tatu podem chegar a cinco metros de comprimento, 1,5 a 2 metros de profundidade e 35 centímetros de largura. Os pesquisadores registraram que dentro da toca a temperatura se mantém constante (24 graus Celsius). “Com as mudanças climáticas e a tendência de aumento das temperaturas, as tocas de tatu-canastra podem ajudar as espécies a sobreviverem a essas mudanças e temperaturas extremas", explica Desbiez. Os registros da presença de outros animais na toca e no monte de areia foram feitos por cameras trap.

No final de 2019, o projeto passou a aplicar um novo componente técnico: um sensor de atividade dentro do dispositivo de GPS, que traz informações ainda mais detalhadas sobre a vida do tatu-canastra. Ainda em 2020, a equipe do projeto, por conta do uso de um novo grid de cameras trap, terá condição de monitorar possíveis interações sociais (animais que visitam a área residencial um do outro), reprodução, saúde dos tatus e indivíduos-chave que não são monitorados por meio de telemetria. 

Conquistas 

Entre os resultados da pesquisa do projeto Tatu-canastra, no Mato Grosso do Sul, está o reconhecimento da espécie entre os cinco principais mamíferos a serem usados como indicadores para o estabelecimento de áreas protegidas e de corredores de conservação no estado. 

As informações sobre os tatus ajudam na tomada de decisões sobre conservação e foram utilizadas, inclusive, na construção do Plano de Ação Nacional para o Tatu-Canastra, organizado pelo CPB - Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (CPB) e validado pelo Ministério do Meio Ambiente e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, em julho de 2019. 

Treinamento e diálogo com comunidades

Mais de 80 biólogos e veterinários já foram treinados pelo projeto, que se tornou referência para estudantes e profissionais interessados ​​em Conservação in situ. Cerca de 2.500 alunos de 50 escolas públicas no Mato Grosso do Sul, incluindo sete escolas rurais, já foram beneficiados com ações educativas do projeto. Por conta da pandemia, os materiais de educação ambiental estão migrando para o formato digital, uma iniciativa realizada com a Fubá Educação Ambiental – parceira do projeto há dois anos. 

Arnaud Anne WFNReconhecimento - As pesquisas do projeto Tatu-canastra levaram a BBC a desenvolver um documentário de 60 minutos Hotel Armadillo, da série Natural World, em 2017. O projeto também foi reconhecido com um dos maiores prêmios da conservação da biodiversidade, o Whitley Awards, entregue pelo Whitley Fund for Nature (WFN), pelas mãos da princesa Anne, da Inglaterra.

Outra frente é a utilização da metodologia da Ciência Cidadã como forma de obter informações sobre vestígios do tatu-canastra em áreas pré-determinadas no Mato Grosso do Sul. Dos 178 pontos com evidências da presença do tatu-canastra, 127 pontos foram indicados por meio do envolvimento dos moradores. “O diálogo com as comunidades, a partir dessa iniciativa, foi essencial para aproximar o projeto da sociedade”, reforça Desbiez.

 

Desafios e soluções

Entre as ameaças ao tatu-canastra estão: perda dos habitats naturais, caça, atropelamentos nas rodovias e a retaliação aos tatus pelos ataques às colmeias em pequenas propriedades. 

No Cerrado, os tatus correm reais riscos de extinção, já que se trata de um espaço amplamente fragmentado. No Mato Grosso do Sul, por exemplo, há menos de 20% da vegetação nativa. “Potencialmente, os mamíferos de grande porte, como o tatu-canastra, são os mais impactados pelas rodovias; uma vez que se deslocam em grandes distâncias – pela fragmentação do habitat – o que aumenta a possibilidade de travessia nas rodovias e consequentemente de atropelamentos”, destaca Aureo Banhos, professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), pesquisador do projeto. 

“A perda de apenas um tatu-canastra, portanto, significa muito para um ecossistema local. São agravantes a baixa taxa de natalidade e o grande intervalo entre as gestações, que no caso do tatu-canastra pode chegar a três anos. Como engenheiros dos biomas, sua extinção pode ter efeitos negativos em cascata na fauna local”, completa Banhos. O Cerrado é o recordista em atropelamentos da espécie, com 22 animais vítimas, nos últimos 14 anos. Só o estado de Mato Grosso do Sul teve 15 animais atropelados, nos últimos cinco anos. 

Outro desafio tem sido conciliar a conservação do tatu-canastra com a produção dos apicultores. Como as produções e colmeias ficam próximas às áreas florestais nativas, os tatus são atraídos até ali e destroem as colmeias para consumir as larvas. Muitos apicultores tiveram que adotar medidas mitigatórias para impedir a predação das colmeias, o que implicou, em um primeiro momento em investimentos. Atualmente, está em curso a criação do selo Apicultor Amigo do Tatu-canastra, que busca conscientizar e despertar orgulho pelo animal. “A ideia tem sido bem recebida pelos apicultores. Ainda é necessário estabelecer critérios de certificação e realizar mais pesquisas, mas acreditamos nisso como um passo interessante. Os apicultores trabalham nos remanescentes do habitat do tatu e outras espécies silvestres importantes e podem ser beneficiados pelo selo ao venderem seus produtos com essa chancela. O selo indica a responsabilidade deles em cuidar da fauna nativa e que pode abrir ainda mais mercados para a comercialização de produtos”, comenta Desbiez. O trabalho com os apicultores é realizado em conjunto com a Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (IAGRO – Governo Estado do Mato Grosso do Sul), a Federação da Agricultura e Pecuária do Mato Grosso do Sul (Famasul), entre outros parceiros.

Outro projeto que busca desenvolver nas pessoas orgulho pela espécie, foi iniciado em 2020, na região do Parque Estadual do Rio Doce, na Mata Atlântica. Com apoio do Whitley Fund for Nature, a pesquisa vai avaliar a viabilidade da população de tatus-canastra e envolver a população local para que a espécie se torne uma fonte símbolo dos esforços de conservação no parque. Por ser um animal raro, existe a possibilidade, segundo estudos, de que tais áreas sejam os últimos refúgios para a espécie na Mata Atlântica.