Para quem acompanha as negociações internacionais sobre Biodiversidade, Clima e Desertificação, não é novidade que a pauta mais sensível e que sempre gera controvérsia é o financiamento de ações para a implementação das metas dentro de cada um dos temas. Com a Biodiversidade não é diferente. E, enquanto as decisões não são implementadas, mais se aumenta a necessidade por financiamento. Em relatório recente, de setembro de 2026, Paulson Institute, The Nature Conservancy (TNC) e World Wildlife Fund (WWF) avaliaram a dimensão atual da lacuna de financiamento da natureza. Segundo o Relatório Financing Nature 2026: uma atualização de meio de década: do progresso isolado à implementação em escala o déficit de recursos para conservação da biodiversidade quase dobrou de 2020 até hoje, passando de US$ 711 bilhões para US$ 1,317 trilhão por ano. Quer dizer que, para frear a perda de biodiversidade e tentar recuperar uma parte dela perdida, precisaríamos investir esse volume de recursos em ações, projetos e políticas públicas concretas em todo o mundo.
Com as negociações nas COPs da Biodiversidade, os países membros adotaram metas ambiciosas de mobilização de recursos e uma estratégia de longo prazo até 2030. Sob a Meta 19, criada em 2022, isso significa mobilizar pelo menos US$ 200 bilhões por ano até 2030 a partir de todas as fontes, incluindo o financiamento internacional para países em desenvolvimento (sul global) de, no mínimo, US$ 20 bilhões por ano até 2025 e US$ 30 bilhões por ano até 2030.
Mas o Relatório Global da CDB (Convenção da Diversidade Biológica) confirma que “meios de implementação insuficientes continuam sendo uma grande barreira para o cumprimento”, e que, embora venha crescendo, o “financiamento para a biodiversidade permanece insuficiente”. O marco de 2025 de US$ 20 bilhões em financiamento internacional provavelmente não foi alcançado, e que o financiamento privado atingiu o pico em 2021 e, desde então, diminuiu.
“Essa não é uma discussão sobre números em uma planilha, e sim sobre a sobrevivência do que resta do nosso planeta e sobre a regeneração de biomas e provisão de serviços ecossistêmicos. Passamos décadas diagnosticando a perda da biodiversidade com precisão cirúrgica, mas a ciência sem financiamento é apenas um obituário anunciado”, afirma Simone Tenório, pesquisadora e representante do IPÊ na COP17.
Segundo ela, o financiamento é necessário para o cumprimento das estratégias de conservação e deve focar atenção em especial às populações de territórios estratégicos para a biodiversidade e que, sem esse financiamento, as mudanças não irão acontecer.
“Cumprir essa meta significa dar oxigênio, braços e pernas a todas as outras metas da EPANB e do Marco Global. Se não garantirmos a mobilização massiva e direta de recursos especialmente para os povos indígenas e comunidades tradicionais, que são a linha de frente da conservação, continuaremos comemorando textos belíssimos no papel enquanto os ecossistemas colapsam na prática. Financiar a biodiversidade não é doação, não é caridade e não é gasto público, é o investimento estrutural mais urgente para a estabilidade do clima e para a própria vida humana. Na COP17, a mensagem precisa ser cristalina e direta: sem recursos na ponta, a transição ecológica é uma ilusão”, complementa.
As discussões sobre um fundo dedicado e o mecanismo financeiro permanente continuam ao longo dos anos após a COP15 e o estabelecimento da meta 19. O compromisso de Roma na COP16 estabeleceu que as Partes decidiriam sobre um arranjo permanente para o mecanismo financeiro o mais tardar até a COP19. Na COP17, os países deverão detalhar ainda mais os critérios para a tomada dessa decisão. As discussões em Nairóbi, em julho e agosto de 2026, concentraram-se em opções para a criação de um mecanismo permanente e na composição da base de doadores. Há divergências entre países do norte e do sul global cm relação a isso. Enquanto os desenvolvidos defendem a permanência das bases financeiras já existentes, como o Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), outros países querem incluir acesso direto, financiamento baseado em doações e a participação de Povos Indígenas e, separadamente, de comunidades locais.