O Turismo de Base Comunitária (TBC) é um modelo em que o turismo é planejado e gerido pelos próprios moradores dos locais onde ele acontece e em que os recursos financeiros obtidos com a atividade são destinados e compartilhados de forma mais justa entre os participantes. A proposta beneficia geralmente comunidades tradicionais, quilombolas, pescadores, ribeirinhos e indígenas, e acontece especialmente em áreas naturais, de forma a preservar a cultura e o ambiente desses territórios.
O IPÊ, o Instituto Delta do Salobra (IDS) e a Associação dos Moradores do Povoado Salobra (AMPS) deram início, em 2026, a um projeto de Turismo de Base Comunitária na Comunidade Salobra, município de Miranda (MS), no Pantanal Sul-mato-grossense.
A iniciativa “Nas Águas do Salobra”, vai estruturar experiências turísticas operadas por 75 famílias ribeirinhas, moradores locais. “São elas que conhecem cada curva do Rio Miranda, cada pouso do tuiuíú, cada sinal da ariranha. Esse é um turismo que gera renda para quem protege o território e fortalece a conservação da biodiversidade do Delta do Salobra”, afirma Cristina Tófoli, coordenadora do projeto.
O projeto vive um momento de transição, após a entrega de um diagnóstico socioambiental participativo: um levantamento profundo que ouviu famílias, mapeou as dinâmicas territoriais, identificou potencialidades e desafios para o turismo comunitário. Com o resultado do diagnóstico, a equipe do projeto vai iniciar as oficinas de capacitação com os moradores, com formação de guias locais, técnicas de recepção de visitantes e estruturação das experiências turísticas.
“Esse trabalho ainda vai além, porque tanto IDS quanto IPÊ também têm apoiado a AMPS na articulação de melhorias de infraestrutura básica, acesso à água e gestão de resíduos sólidos, reconhecendo que a qualidade de vida dos moradores é condição fundamental para qualquer iniciativa turística”, explica Felipe Dias.
O projeto está inserido no programa GEF Terrestre: Estratégias de Conservação, Restauração e Manejo para a Biodiversidade da Caatinga, Pampa e Pantanal, financiado pelo FUNBIO com recursos do GEF (Global Environment Facility) e apoio do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e do Governo Federal. O programa busca demonstrar que é possível conservar a biodiversidade desses biomas por meio de alternativas econômicas sustentáveis e do engajamento direto das comunidades locais.
“Nas Águas do Salobra” contribui especificamente para o componente de alternativas econômicas sustentáveis e engajamento comunitário na conservação — um modelo que conecta geração de renda, proteção ambiental e organização social em um território estratégico para a biodiversidade brasileira.

Experiências turísticas previstas
As experiências turísticas serão estruturadas e operadas pelos próprios moradores, com capacitação técnica e metodológica do IPÊ e do IDS. As atividades previstas incluem passeios de barco pelo Rio Miranda, com navegação guiada por barqueiros que conhecem cada braço do rio; culinária pantaneira com pesca artesanal e preparo a bordo; trilhas interpretativas pela vegetação de transição entre biomas; e birdwatching, com observação de aves como o tuiuíú, a arara-azul e dezenas de espécies aquáticas.
“O diferencial dessas experiências está no conhecimento geracional dos moradores. Os barqueiros sabem onde as ariranhas aparecem, onde os jacarés descansam, onde as aves se concentram ao entardecer. Esse saber, passado de pais para filhos, não se encontra em nenhum guia turístico, o que torna o TBC no Salobra uma experiência única”, afirma André Nunes.

Impacto esperado
O projeto busca resultados concretos em múltiplas dimensões:
• Geração de renda para as 75 famílias da comunidade a partir do turismo operado por elas próprias;
• Conservação da biodiversidade do Delta do Salobra, tendo o turismo como incentivo econômico para a proteção do território;
• Fortalecimento da AMPS como instância legítima de gestão comunitária e governança local;
• Valorização dos saberes e da cultura pantaneira: conhecimento local sobre rios, aves, plantas e história;
• Melhoria de infraestrutura básica: acesso à água e gestão de resíduos como legado do projeto;
• Desenvolvimento de modelo replicável de turismo comunitário aplicável a outras comunidades do Pantanal.