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Durante o Encontro Nacional do Diálogo Florestal, realizado de maneira online na segunda quinzena de novembro, foram apresentadas as novas organizações que vão compor o conselho de Coordenação Nacional do Diálogo Florestal. Entre elas está o IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas representado pela pesquisadora Maria Otávia Crepaldi e Simone Tenório, como suplente. 

Durante a cerimônia de posse, a pesquisadora destacou a atuação no IPÊ e o interesse do instituto em contribuir ainda mais com as discussões do setor. “O IPÊ tem tradição na implementação dos corredores ecológicos e no planejamento do uso da terra visando florestas na escala da paisagem. Estamos muito felizes em fazer parte do Diálogo Nacional na Década da Restauração. Dessa forma, estaremos ainda mais próximos de questões estratégicas envolvendo empresas, comunidades e organizações do terceiro setor”.  

O IPÊ também integra o Conselho do Fórum Florestal da Bahia e o Conselho de Coordenação do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica. 

IMG 3614Na primeira semana de dezembro, o projeto “Educação, Paisagem e Comunidade”, realizado pelo IPÊ e ESCAS no Espírito Santo, deu mais um passo nas ações que buscam apoiar a regeneração do solo e conservação da água em áreas de influência da bacia do Rio Doce.

Em uma construção coletiva, técnicos do IPÊ e produtores dos assentamentos Boa Esperança e Beija-flor (em Alto Rio Novo) e Rosa de Saron (em Água Branca) definiram as próximas etapas do projeto, de acordo com as necessidades e sonhos dos agricultores para os assentamentos. Em fevereiro, será a vez do assentamento Laje participar e fechar o ciclo de planejamento.

Em três encontros, mediados por Leonardo Rodrigues, do IPÊ, os produtores foram convidados a olharem para seus territórios e apontarem o que de mais importante existem neles. Desenhando um mapa próprio, os participantes identificaram cursos d´água, cultivos (café, cacau, frutíferas), estradas, florestas, e demais elementos que compõem os seus lotes e são relevantes para o dia a dia dos moradores.

“A proposta aqui foi situar as pessoas no presente, para que elas trouxessem o que já existe de bom nos assentamentos e os desafios para melhorá-los, do ponto de vista socioambiental. Isso é a base que usamos para iniciarmos o segundo momento do processo, que é pensar o futuro dos lotes e dos assentamentos, com qualidade de vida para todos”, afirmou Leonardo (foto).

O processo de criação coletiva do projeto faz parte da metodologia do IPÊ, adotada em projetos em outros lugares do Brasil, como nos assentamentos do Pontal do Paranapanema (SP). A ideia é que as comunidades apontem as suas expectativas com relação ao trabalho que será executado em conjunto com o Instituto e que se sinta parte fundamental da ação, garantindo, assim maior envolvimento e aproveitamento das ações implementadas.

WhatsApp Image 2021 12 17 at 11.38.52“Foi a primeira vez que participei de uma reunião assim. Eu achei muito interessante pensar esse mapa. A gente aprende fazendo junto”, comenta Elcio da Silva Pontes, do assentamento Boa Esperança.

Olhar para o futuro

Elcio, assim como a maioria dos assentados que participaram dos encontros, apontou as nascentes de rios como elemento de atenção para a saúde do território. A preservação de áreas verdes, a conservação de nascentes e cursos d´água, além da disponibilidade de recursos hídricos em quantidade e qualidade na região são pontos preocupantes para o futuro.

A questão sobre qualidade do solo e como aproveitar água de chuva, além de melhorar a drenagem das estradas também fez parte da conversa. A proposta dos assentados para uma solução ao problema é utilizar árvores para “plantar água”, garantindo a vida de nascentes, e também fazer caixas-secas, especialmente em beira de estradas, para conter a água da chuva.

POMBINHO ROSA DE SARONOutro ponto bastante comentado entre os assentados é a necessidade de envolver ainda mais os jovens no campo e na produção em seus lotes. “A gente tem que pensar em quem vai dar continuidade nesse trabalho que a gente está fazendo. Muitos jovens não querem ficar no campo porque não vêm oportunidade aqui. Precisamos da escola como apoio para isso e pensar oportunidades que envolvam os mais novos”, afirma Claudeni Pereira de Souza, do assentamento Rosa de Saron (na foto, de camisa amarela).

Aumentar a produção, melhorar a infraestrutura, ter um olhar para a gestão e escoamento do que é produzido, e pensar em novos negócios também foram assuntos das conversas como propostas de melhorias para os assentamentos. “A gente precisa de apoio para colocar as coisas pra frente. Nossa produção é boa, mas pode melhorar com mais adubo, mais recursos pra ajudar na produção. É importante a gente pensar nisso”, afirma Ilza Assis, do assentamento Beija-Flor.

Diante dos desafios apontados e dos desejos futuros, cada assentamento estipulou prioridades a serem trabalhadas pelo projeto ao longo dos próximos meses, de acordo com suas necessidades e oportunidades. As ações seguem então com um objetivo ainda mais focado e sempre destacando a participação social como elemento propulsor.

“Para que o projeto possa acontecer de forma positiva, a organização social é fundamental, não só na forma de cooperativas para escoar produção, por exemplo, mas para fortalecer e valorizar o produtor rural em sua busca por melhores condições de educação e infraestrutura, entre outras necessidades”, complementa Leonardo.

Os encontros também contaram com representantes das prefeituras locais, secretarias de meio ambiente e cultura, sindicatos rurais e associações que acompanharam de perto a ação.

São eles:

Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Alto Rio Novo ES
Sindicato Dos Trabalhadores Rurais De Águia Branca ES
Incaper - Instituto Capixaba De Pesquisa, Assistência Técnica E Extensão Rural  de Alto Rio Novo 
Incaper - Instituto Capixaba De Pesquisa, Assistência Técnica E Extensão Rural  de Águia Branca
Prefeitura Municipal de Alto Rio Novo 
Prefeitura Municipal de Águia Branca
Secretarias de Meio Ambiente, de Agricultura e de Educação 
Fundação Renova 
Associação De Mulheres Rota Das Paineiras - Assentamento Rosa de Saron, Águia Branca
Associação de Moradores do Assentamento Rosa de Saron, Águia Branca

O projeto "Educação, Paisagem e Comunidade" tem apoio financeiro da Fundação Renova.

Mais de 180 profissionais já participaram do curso “ISE - Integração de Serviços Ecossistêmicos em processos de planejamento, gestão e comunicação estratégica no contexto territorial, com foco nas áreas protegidas e outras medidas de conservação locais” recém-lançado em outubro. Trata-se de uma realização da ESCAS/IPÊ em parceria com a GIZ - Cooperação Alemã para o Desenvolvimento Sustentável. 

Segundo María Olatz Cases, diretora do projeto regional áreas protegidas locais, da GIZ, a parceria busca dar sustentabilidade ao curso, relevância do tema para o alcance dos ODS e para o Acordo de Paris. “O IPÊ é parceiro de longa data e instituição expoente no tema. O apoio da ESCAS/IPÊ e de outras redes multiplicadoras – como o ICLEI – para a divulgação e promoção dos cursos é de fundamental importância para alcançar o público-alvo e para que as discussões sobre integração dos serviços ecossistêmicos nos processos de planejamento e gestão continuem”.

Para Eduardo Badialli, coordenador da Pós-graduação Lato Sensu e dos cursos de curta duração da ESCAS, a parceria é vista como estratégica para o fortalecimento das áreas protegidas.  “IPÊ/ESCAS e GIZ são parceiros de longa data. Especificamente com esse curso, acreditamos que estamos diante de um passo importante para o fortalecimento das áreas protegidas na esfera local”. 

Com 35 horas, 100% online no site da ESCAS e dividido em três módulos, o curso tem como público-alvo gestores, tomadores de decisão, planejadores de desenvolvimento e técnicos. “Observamos que há pouco material disponível sobre a oferta dos benefícios prestados por esses territórios às comunidades locais, o que dificulta a sua inclusão nos processos de planejamento e tomada de decisão por parte de gestoras e gestores locais. É importante que esses profissionais possam ampliar seus conhecimentos e o entendimento desse tema, incentivando, assim, a criação de políticas ou outras medidas para colaborar para a manutenção desses serviços”, destaca.

Estreia 

“Tivemos uma procura bastante alta na primeira edição, em outubro, o que nos fez abrir uma nova turma ainda em 2021. Esperamos nos próximos anos muitas outras turmas para esse curso e contamos com a ESCAS/IPÊ e com os multiplicadores para isso”, revela María Olatz Cases, diretora do projeto regional áreas protegidas locais, da GIZ.  

O curso ISE integra o Projeto APL - Áreas Protegidas e outras medidas de conservação baseadas em áreas em nível dos governos Locais, da GIZ, implementado no Brasil, Colômbia, Equador e Peru que visa promover o intercâmbio e a integração entre experiências na região. “Ele não apenas é implementado em uma linha temática comum aos quatro países, como também possibilita essa troca de aprendizagem. Por isso, optamos por difundir um tema de alta relevância para a conservação da biodiversidade em toda a região”, afirma a diretora do projeto regional áreas protegidas locais, da GIZ.  

Quanto aos desafios para a implementação da metodologia ISE ao planejamento e desenvolvimento e gestão de Áreas Protegidas, Maria Olatz comenta que esse é também um dos objetivos do curso. “Consiste em que a metodologia seja internalizada e considerada na construção das políticas públicas dos governos locais, de maneira que outras áreas de planejamento territorial nos municípios olhem de forma conjunta para as contribuições e a relevância das áreas protegidas e outras medidas de conservação. 

Esperamos que o curso qualifique o planejamento e a tomada de decisões de gestores locais e resulte em gestões mais harmônicas, bem como na melhoria das condições de provisão dos serviços ecossistêmicos, com os respectivos efeitos na economia e no bem-estar da população local, ajudando, dessa forma, a superar esse grande desafio”.

Histórico 

Segundo Olatz, a capacitação vem como resultado da adaptação de outro curso preexistente, desenvolvido e realizado pela GIZ, o Helmholtz Centre for Environmental Research (UFZ) e o Conservation Strategy Fund (CSF), no âmbito do projeto global ValuES, em mais de 16 países. 

“O curso também potencializa a formação multiplicadores desse conhecimento, o que é fundamental para a sua sustentabilidade, considerando que o projeto APL encerra em 2022. É preciso que outros parceiros e instituições continuem repassando essas informações adiante. Esse é o papel das redes multiplicadoras nos quatro países em que atuamos”.

O conteúdo leva a assinatura da GIZ, do ICLEI e da UICN - parceiros de implementação do projeto Áreas Protegidas e outras medidas de conservação baseadas em áreas em nível dos governos locais e na elaboração do curso. “A abordagem do projeto buscou considerar, tanto quanto possível, as especificidades nacionais, subnacionais e locais, adequando o conteúdo contexto de cada um dos quatro países.  Além do ICLEI e da UICN, também foram envolvidas no processo as contrapartes políticas em cada país o Ministério do Meio Ambiente do Brasil (MMA), o Ministério do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia (MinAmbiente), o Ministério do Ambiente, Água e Transição Ecológica do Equador (MAATE) e o Ministério do Ambiente do Peru (MINAM), assim como os governos locais dos quatro países”, explica Maria.

O Programa de Conservação do Mico-Leão Preto, realizado no Pontal do Paranapanema pelo IPÊ, receberá por mais dois anos o aporte do Disney Conservation Fund (DCF) para suas atividades de pesquisa, educação ambiental e conservação da espécie.

O DCF tem apoiado o Programa por diversos ciclos, desde 2005. De 2017 a 2020, o fundo financiou a instalação de ocos artificiais, ações de educação ambiental e suporte para ações no corredor de Mata Atlântica, o maior do Brasil, reflorestado pelo IPÊ. Os ocos foram uma grande evolução para o projeto, ajudando a entender a dinâmica de movimentação dos micos e uso do corredor e fragmentos próximos a ele. Tudo isso porque, para os micos-leões-pretos, as fontes de alimento (frutas, insetos e pequenos vertebrados) e locais de dormitório (buracos de árvores) são componentes vitais do habitat que afetam diretamente o número de indivíduos que podem usar e viver em uma área. Entretanto, as árvores do corredor, por serem mais novas, não possuem ocos naturais. Para promover o uso dessas áreas restauradas pelos micos, uma das ações do projeto apoiado pelo DCF foi justamente a instalação de ocos artificiais, caixas de madeira que funcionam como abrigo e dormitório para a espécie. Outro avanço do projeto foi a utilização de GPS nos micos, em mochilas instaladas nos indivíduos para monitoramento, cujo apoio da Disney viabilizou os primeiros testes dessa tecnologia.

Para os próximos anos, o programa continua com as frentes de ação de Pesquisa, Educação Ambiental e Conservação. As pesquisas de campo incluem monitoramento dos grupos que vão fazer parte do manejo de populações.

“É importante dizer que tudo faz parte de um processo pensado e planejado conjuntamente por um grupo de especialistas, com a chancela dos órgãos governamentais responsáveis. Inicialmente, vamos avaliar a viabilidade da translocação para cada população, para definir quais delas farão parte dessa estratégia [já usada pelo Programa desde 1995]. A partir das necessidades identificadas, desenharemos as estratégias e protocolos, que são aprovados por um Grupo de Assessoramento Técnico ligado ao PAN, para finalmente realizar a movimentação de grupos de micos entre essas populações. Estamos bastante felizes para seguir essa nova etapa, evolvendo diversos atores em prol desse passo importante para a espécie”, afirma a bióloga Gabriela Cabral Rezende. Todas as ações de pesquisa e conservação com o mico-leão-preto apoiam e estão em concordância com o Plano de Ação Nacional (PAN) para a Conservação dos Primatas da Mata Atlântica e da Preguiça-de-coleira, que é parte da estratégia nacional e global de conservação da biodiversidade.

Assim como nos anos anteriores, as ações de Educação Ambiental vão ocorrer nas escolas públicas em municípios estratégicos para a proteção do mico, no Pontal do Paranapanema. Uma das atividades mais relevantes é levar informação científica e capacitar professores para iniciativas de educação ambiental nas salas de aula. Já estão sendo produzidos materiais didáticos sobre o assunto.

Como ação complementar para a conservação do mico-leão-preto, o programa vai continuar a mobilizar a sociedade levando conhecimento sobre a espécie e elaborando métodos que possam ajudar na manutenção da vida desse animal, que é símbolo do estado de São Paulo. Já está em curso o planejamento de instalação de passagens seguras para os micos, passando por cima de estradas que cortam áreas verdes de uso da espécie. Essas passagens conectam-se  aos corredores de floresta para garantir ainda mais espaço para os micos e as demais espécies que habitam a região, trazendo segurança para eles se movimentarem pela paisagem.

O Programa também recebe apoio de Durrell Wildlife Conservation Trust, Margot Marsh Biodiversity Foundation/Re:wild e Whitley Fund for Nature.

Durante 10 anos, na Mata Atlântica, pesquisadores compararam áreas de floresta utilizadas por mamíferos herbívoros, incluindo a anta-brasileira (Tapirus terrestris) e a queixada (Tayassu pecari), e áreas para as quais o acesso desses animais foi bloqueado por plots de exclusão (cercas). O resultado principal é que as áreas utilizadas por esses animais apresentaram menor perda de diversidade do que as áreas cercadas.

O estudo inédito em florestas tropicais gerou um artigo recém-publicado no Journal of Applied Ecology do British Ecological Society (BES). As pesquisas foram realizadas no Parque Estadual Morro do Diabo, no extremo oeste do Estado de São Paulo. O trabalho traz um alerta para a importância de ações de conservação de animais ameaçados de extinção. A anta brasileira, por exemplo, integra o Red List da IUCN - União Internacional para Conservação da Natureza, como "Vulnerável à Extinção" em toda a sua distribuição. Já a queixada é considerada "Criticamente Ameaçada" na Mata Atlântica.

A coordenadora da INCAB - Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira, do IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas, Patrícia Medici, assina o artigo junto com Nacho Villar, pesquisador do Instituto Holandês de Ecologia NIOO-KNAW. "Neste estudo, relatamos os resultados de um primeiro experimento sobre os efeitos que a conservação e proteção dos grandes herbívoros têm sobre a manutenção da biodiversidade em florestas tropicais e, até onde sabemos, em qualquer outro bioma florestal. O estudo indica que os grandes herbívoros têm um papel muito importante para desacelerar a perda de diversidade florestal", conta Patrícia.

 Medici Tapirs Brazil HRS Credit Joao Marcos Rosa

Conservacionista Patrícia Medici fotografa anta-brasileira no momento em que o animal sai da armadilha de caixa onde foi capturada para a coleta de materiais biológicos para estudos de saúde e genética.
O registro foi feito na Fazenda Baia das Pedras no Pantanal brasileiro (Município de Aquidauana, Estado do Mato Grosso do Sul), um dos principais biomas para a conservação da anta no país.
Crédito da foto: João Marcos Rosa

Segundo o estudo, as florestas maduras com alta diversidade foram as que mais se beneficiaram da presença dos grandes herbívoros. "Por outro lado, os resultados mostram como a composição da floresta é severamente afetada quando os animais são excluídos do bioma, sinalizando o que pode estar acontecendo em uma série de outros fragmentos da Mata Atlântica, um dos biomas mais ameaçados do planeta", destaca a pesquisadora.

Com o início da Década da Restauração das Nações Unidas (2021-2030), os resultados deste estudo são também uma orientação para futuras iniciativas de conservação e restauração florestal.  "A conservação desses animais e a restauração trófica (sem participação do homem) são cada vez mais reconhecidas como ferramentas importantes para restaurar ecossistemas florestais e evitar os efeitos agudos das mudanças globais sobre a biodiversidade. No entanto, tais soluções baseadas na natureza ainda não são reconhecidas como uma opção de conservação, sobretudo para florestas tropicais. Acreditamos que o estudo reforça como seria estratégico seguirmos nessa direção", destaca a pesquisadora.

Do ponto de vista aplicado, tais descobertas indicam que a conservação das espécies e a restauração promovida por elas, podem ser mais eficazes na proteção contra fortes declínios de diversidade de longo prazo em florestas tropicais bem preservadas com altos níveis de diversidade florestal. "Durante os 10 anos do estudo, a abundância de plantas na fase inicial de germinação, o estabelecimento delas e a riqueza de espécies diminuíram cerca de 20% ou mais, proporcionando um experimento natural único para testar a significância funcional dos grandes herbívoros para evitar o colapso da biodiversidade a longo prazo", diz Patrícia.

Os pesquisadores observaram também se os grandes herbívoros afetam de forma diferenciada as florestas maduras em comparação com as florestas secundárias. "Essa é uma questão importante e inexplorada na conservação e restauração trófica. Nas florestas secundárias, identificamos cerca de metade do número de espécies das florestas maduras. Em florestas secundárias, os resultados indicam limitada proteção dos grandes herbívoros contra a perda de diversidade. Mudanças ambientais regionais de longo prazo colocam em risco o potencial de recuperação de tais florestas secundárias e a transição para mais florestas maduras e diversificadas", afirma Nacho Villar.

Detalhes da pesquisa na prática

As descobertas são fruto do monitoramento de 200 m² de Mata Atlântica do Interior no Parque Estadual Morro do Diabo, São Paulo, Brasil, realizado entre 2004 e 2014.  "Investigamos o potencial de atuação dos grandes herbívoros contra o colapso da diversidade vegetal a longo prazo, examinando seus efeitos na abundância de plantas na fase inicial de germinação, riqueza e diversidade de espécies, diversidade temporal e na taxa de mudança de composição florestal. Esses animais contribuem diretamente com as plantas do sub-bosque, por meio da dispersão de sementes e atuação nas plantas na fase inicial de germinação. Desta forma, redutos de biodiversidade são altamente sensíveis ao desaparecimento de animais tais como a anta-brasileira (Tapirus terrestris) e o queixada (Tayassu pecari), por exemplo", explica Villar.

A equipe de Patrícia dividiu a área monitorada em 200 parcelas, incluindo 100 áreas cercadas de forma a evitar o acesso dos grandes herbívoros e 100 áreas de controle, onde não houve restrição à entrada dos animais. Como forma de compreender possíveis diferenças de acordo com o amadurecimento da floresta, as áreas cercadas estavam divididas em dois grupos, sendo 25 pares em áreas de floresta madura e 25 pares em floresta secundária.

Para o isolamento das áreas (plots de exclusão), os pesquisadores utilizaram postes de madeira e tela de arame (2x2 cm). As exclusões tinham as seguintes dimensões: 3 metros de largura, 6 metros de comprimento e 1,20 metros de altura. Foi mantida uma abertura de 20 cm ao redor da parte inferior do plot permitindo assim a entrada de pequenos mamíferos terrestres, tais como roedores e marsupiais. Dentro de cada área de exclusão, uma área de amostragem central de 1x4 m foi estabelecida e dividida em quatro quadrantes de 1x1 m.

Parcelas de controle não cercadas tinham 1 m de largura e 4 m de comprimento, divididas em quatro quadrantes de 1x1 m. Para cada parcela de exclusão e controle, dois dos quadrantes de 1x1 m foram escolhidos aleatoriamente para serem amostrados ao longo do estudo.

Amostragem florestal

Nas áreas monitoradas, todas as plantas com mais de 10 cm e diâmetro ≤ 5 cm foram marcadas com placas de PVC e receberam um número de referência. A metodologia permitiu realizar amostragem subsequentes dos mesmos indivíduos. As novas plantas que surgiram durante a pesquisa e que também atendiam aos critérios foram incorporadas ao protocolo de monitoramento.

Durante os primeiros cinco anos do estudo (2004-2008), os pesquisadores realizaram medições das plantas duas vezes por ano, no início da estação chuvosa (outubro) e no início da estação seca (abril). No período de 2009 a 2012, a coleta de dados foi realizada uma vez ao ano. As medições finais ocorreram em 2014, encerrando 10 anos de coleta de dados, com 14 medições. "Seguimos o destino de 7.287 plantas e rastreamos o declínio da diversidade durante o período de 10 anos", destaca Patrícia.

Ameaças e oportunidade

A conservação dos grandes herbívoros e a restauração florestal promovida por eles, especialmente em florestas tropicais, representam desafios por uma série de ameaças que esses animais enfrentam pela ação do homem. Segundo os pesquisadores, avanços nessa direção precisam considerar medidas de proteção às espécies. "Manejo da paisagem eficaz, fiscalização e conservação visando aumentar as populações desses animais e a facilitação da dispersão e movimentação entre remanescentes florestais são estratégicas. Além delas, vale pontuar, a necessidade de iniciativas de reintrodução e translocação desses animais, uma vez que grandes extensões de florestas maduras ricas em diversidade atualmente estão desprovidas desses animais, por conta da caça, do atropelamento e tantas outras ameaças". 

Com base nos resultados, os pesquisadores destacam que a restauração ativa das florestas neotropicais com grandes herbívoros pode ser, de fato, a solução mais eficaz para melhorar o estado de conservação de muitas espécies de grandes herbívoros contribuindo com a diversidade das florestas tropicais a longo prazo. "Sugerimos que as medidas tenham início em florestas maduras e, em seguida, em florestas secundárias com altos níveis de diversidade".