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A falta d´água nas torneiras já é uma realidade em alguns bairros paulistanos e cidades do interior do Estado, abastecidos pelo Sistema Cantareira. As temperaturas elevadas e a falta de chuva são os eventos considerados responsáveis pela situação, entretanto, um estudo do IPÊ aponta razões ainda mais graves para a seca que afeta as represas do sistema, que fornece água a milhões de pessoas na Região Metropolitana de São Paulo e em Campinas.

Um diagnóstico com imagens de satélite de alta resolução, mostra que 47% das Áreas de Preservação Permanente (APPs) em rios e córregos de oito municípios que abrangem do Sistema Produtor de Água Cantareira estão sendo utilizadas de maneira inadequada, ou seja, não estão cobertas por floresta nativa (Mata Atlântica) que garanta as condições ecológicas necessárias para a produção e manutenção dos recursos hídricos na região, como é necessário por lei. Aproximadamente, 36% das áreas afetadas estão ocupadas por pasto e outros usos, e cerca de 11% estão cobertas com eucalipto.

A análise faz parte dos resultados das pesquisas sobre serviços ecossistêmicos na região, por meio de diversos projetos do IPÊ. O levantamento foi realizado nos municípios que têm mais de 40% de seu território dentro da área de drenagem das bacias responsáveis pelo seu abastecimento. São eles: Mairiporã (SP), Nazaré Paulista (SP), Piracaia (SP), Joanópolis (SP), Vargem (SP), Extrema (MG), Itapeva (MG) e Camanducaia (MG).

As florestas presentes na região são fundamentais para a recarga hídrica do sistema, pois conferem uma infiltração mais lenta e limpa da água da chuva no solo. Independentemente de onde as APPs estejam localizadas, a ausência de cobertura florestal nessas áreas permite uma degradação ambiental em escala, pela inerente característica de estarem associadas aos recursos hídricos, já que funcionam como matas ciliares (que protegem as bordas de rios e nascentes retendo mais água e garantindo a qualidade de seus nutrientes).

Atividades buscam reduzir impactos e recuperar corpos hídricos

Com este diagnóstico em mãos, o IPÊ vem realizando ações na área de abrangência do Sistema Cantareira para melhoria do uso do solo, restauração florestal em APPs, educação ambiental e capacitação, com vistas a modificar essa situação.

Em Nazaré Paulista, o projeto “Nascentes Verdes, Rios Vivos” busca conciliar a produção de mudas nativas da Mata Atlântica com a restauração florestal de áreas degradadas em APPs e ações de educação ambiental voltadas para a valorização dos recursos ambientais da região. Em cinco anos, o projeto mantém 150 hectares de áreas degradadas em processo de restauração florestal. Mais de 250 mil mudas já foram plantadas e todos os alunos de 11 a 13 anos da rede pública de ensino são beneficiados anualmente pelas atividades socioeducativas.

Os resultados são fruto de diversas parcerias, entre elas a SABESP, que detém a outorga do Sistema Cantareira e concede suas áreas para restauração. Também a Prefeitura de Nazaré Paulista e a CATI – Nazaré Paulista (Coordenadoria de Assistência Técnica Integral). Diversos parceiros empresariais e cidadão, doadores individuais, estão engajados com o Projeto e o apoiam ao longo dos anos.

Já o projeto “Semeando Água”, que tem patrocínio da Petrobras, busca o apoio de pequenos proprietários das oito cidades de abrangência do Sistema Cantareira, com capacitação, melhoria da ocupação do solo, educação ambiental e restauração. Por exemplo, estão tentando mudar essa característica do mau uso do solo com a implantação de sistemas de produção pecuária de menor impacto ambiental, através do pastoreio rotacionado em sistema Voisin. A prática favorece a dinâmica da pastagem de modo a beneficiar a infiltração de água no solo e a produção animal em si, por conta da oferta de melhor forragem.


Desde quarta-feira, a equipe de Educação Ambiental está apresentando o projeto “Semeando Água” para professores de escolas públicas, durante as reuniões de planejamento de aulas.

As escolas - Coronel João Ernesto Figueiredo (Joanópolis), Vicente Camargo Fonseca (Joanópolis), João Moraes Góes (Piracaia) e Professora Augusta do Amaral Peçanha (Piracaia) cederam o espaço para o IPÊ DSCN2740apresentar para os professores o projeto “Semeando Água”, que é patrocinado pela Petrobras. Durante as reuniões a educadora ambiental, Andréa Pupo, explicou os principais objetivos do projeto na região e mostrou as primeiras ações realizadas nas cidades, como por exemplo, a parceria com o proprietário rural José Bragion, em Joanópolis, que converteu o seu pasto convencional para o sistema rotacionado. “É importante participarmos e apresentarmos os projetos nessas reuniões de planejamento, já que esse é o momento em que os professores estão pensando em suas ações para o ano. Assim, podemos contribuir para a inserção da temática Meio Ambiente e Educação Ambiental em seus planos de aulas e disciplinas”, explica Andrea.


O próximo passo é agendar as primeiras palestras com os alunos das escolas de Piracaia e Joanópolis. Paralelamente as ações de educação ambiental, os pesquisadores do “Semeando Água” vem estabelecendo novas parcerias com proprietários rurais.

Entre os dias 11 e 14 de fevereiro, alunos do MBA Gestao de Negócios Socioambientais, da ESCAS - Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade ( do IPÊ) participaram de uma visita técnica na região do Baixo Rio Negro, Amazonas. Ali, assistiram a apresentações sobre cadeias produtivas do artesanato e produtos da agrobiodiversidade, e tiveram oportunidade de vivenciar o dia a dia das famílias que praticam essas atividades. A ideia foi estimular o grupo a refletir sobre o contexto local e discutir sobre as ações socioambientais desenvolvidas pelo IPÊ no âmbito do projeto Eco-Polos Amazônia XXI.

Essa é a quarta viagem do Barco Maíra, do IPÊ, com intuito de promover o intercâmbio e troca de experiência entre profissionais de diversas áreas e as comunidades envolvidas nas ações do projeto do Instituto na Amazônia. As visitas técnicas são vistas com bons olhos pelos pesquisadores que atuam no projeto, pois além de fortalecerem a relação com as comunidades, também são uma forma de discutir e avaliar as ações e atividades desenvolvidas pelo projeto.

A oportunidade de conhecer um pouco do cotidiano das famílias no Baixo Rio Negro também impressiona os profissionais visitantes. “Essa experiência foi de fundamental importância para o entendimento das questões socioambientais na Amazônia, valeu muito mais que várias semanas em sala de aula” comenta Ornellas Guzzo Vilardo , uma das alunas do MBA que trabalha numa grande corporação em São Paulo.

Buscando dar continuidade a visita e sistematizar as impressões dos alunos do curso, um trabalho de reflexão e avaliação será desenvolvido com professores especializados em empreendedorismo socioambiental da USP e a equipe do IPÊ em março, na sede do Instituto em Nazaré Paulista (SP). O MBA Gestão de Negócios Socioambientais tem apoio pedagógico do CEATS/USP e Artemisia Negócios Sociais.

Saiba mais sobre o projeto Eco-Polos Amazônia XXI: www.ipe.org.br/blogecopolos

A partir de 1o de março, estarão abertas as inscrições para novas turmas do Mestrado Profissional em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável. O curso é realizado pela ESCAS - Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade, uma iniciativa do IPÊ.

As possibilidades de ingresso são para os dois formatos oferecidos em Nazaré Paulista (SP): Intensivo e Modular. Confira os Editais: http://www.ipe.org.br/mestrado/editais-2014/

Desde 2006, a ESCAS realiza o Mestrado Profissional, investindo na capacitação e formação de profissionais para lidar com os novos desafios socioambientais. Para isso, conta com o apoio de importantes parceiros como o Instituto Arapyaú e Fibria (na Bahia), além de contar com o suporte de US Fish and Wildlife Service e o Programa do WWF/EFN - Education for Nature.

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Acesse: www.escas.org.br

Artigo de Suzana Padua (presidente do IPÊ e professora da ESCAS) e Oscar Sarcinelli (pesquisador do IPÊ e professor da ESCAS), aborda as consequências do mau uso do solo nas áreas rurais que abrangem o complexo do Sistema Cantareira. Abaixo, um trecho do artigo. A íntegra está no site O ECO: http://www.oeco.org.br/suzana-padua/28050-cantareira-agua-pode-faltar-por-negligencia-e-desperdicio

 

Ao invés de olharmos para o céu em busca de nuvens, devemos olhar para baixo para enxergarmos outras razões para a escassez de água.

A água que chega a esses milhões de habitantes vem da cabeceira da bacia PCJ (rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí), que compõem os reservatórios do Sistema Cantareira, localizados na região bragantina de São Paulo e sul de Minas Gerais. O que acontece diariamente é uma grande transposição de água, a maior sendo direcionada para a Região Metropolitana de São Paulo. Rios, córregos e nascentes formam a bacia que alimenta reservatórios e, logo, todo o sistema.

Maus tratos

Um diagnóstico com imagens de satélite de alta resolução realizado pelo IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas mostrou que, embora haja boa cobertura de Mata Atlântica na bacia de drenagem do Sistema Cantareira (aproximadamente 40%), há um déficit nas Áreas de Preservação Permanente (APPs). Mais conhecidas como matas ciliares, as APPs têm o papel, entre outras funções, de proteger as cabeceiras de rios e nascentes, contribuindo para a manutenção da qualidade e da quantidade de água. O estudo, realizado em 8 municípios - Mairiporã, Nazaré Paulista, Piracaia, Joanópolis, Vargem (SP), e Extrema, e Camanducaia (MG) – descobriu que 53% dessas APPs estão cobertas com floresta, mas os 47% restantes são pastos para pecuária ou plantações de eucalipto, que ocupam 12% da bacia, e sua produção continua em franca expansão, devido à elevada demanda de carvão e lenha das grandes cidades.

A produção pecuária na região têm origens que remetem à colonização, há mais de 300 anos. Já a silvicultura para lenha e carvão teve início com a construção dos reservatórios do Sistema Cantareira, que, ao alagar as áreas planas e férteis próximas às cidades e onde, tradicionalmente, se plantava gêneros alimentícios como milho, arroz e feijão, fez a população se deslocar para as encostas e buscar uma cultura apropriada a essas áreas, como é o caso do eucalipto. Ambos os sistemas produtivos praticados na região carecem de práticas conservacionistas de solo e assistência técnica rural na escala de paisagem, visto que, quase metade da região de abastecimento desse sistema apresenta uso do solo e manejo da produção inadequados; inovações em ciência e tecnologia não vêm sendo implementadas com frequência.

A ausência de cobertura florestal nas APPs permite uma maior degradação ambiental, e consequências nefastas aos recursos hídricos. O relevo da região é ondulado a acidentado, o que favorece processos erosivos e sedimentação nos corpos hídricos, provocando assoreamento. As áreas florestais que abrangem represas que abastecem o Sistema Cantareira são fundamentais para a recarga hídrica do sistema, pois conferem uma infiltração mais lenta e limpa da água da chuva no solo.

Há também uma falta de ações coerentes com a proteção de um manancial dessa importância. As estradas rurais, por exemplo, são mal projetadas e com manutenção deficitária. A quantidade de barcos a motor navegando nos reservatórios tem aumentado, e as atividades turísticas surgem de forma desorganizada. Consequências incluem especulação imobiliária, parcelamento e impermeabilização do solo por construções inadequadas, resíduos de combustíveis e óleos lubrificantes das embarcações, presença de pousadas e marinas.

Esse cenário, somado ao desrespeito à legislação ambiental e à sedimentação provocada pelo uso inadequado do solo estão "sufocando" nascentes e corpos d'água que desaguam nos reservatórios. Portanto, estamos cuidando mal das áreas situadas na bacia de drenagem do Sistema Cantareira.